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segunda-feira, 28 de março de 2011

Brasil vence EUA em disputa na OMC sobre suco de laranja

A Organização Mundial do Comércio (OMC) se posicionou a favor do Brasil na ação que contesta as medidas antidumping aplicadas pelos Estados Unidos na importação de suco de laranja.

O comitê de arbitragem oficializou a sua posição de que as medidas adotadas pelos americanos são incompatíveis com as normas internacionais. A principal queixa brasileira é contra a metodologia conhecida como “zeroing” ou zeramento.

Por esse sistema, o governo ignora margens de dumping negativas (vendas acima do valor normal) nos cálculos totais e as contabiliza como zero. Na outra ponta, serão contabilizados apenas os casos com margens de dumping positivas (vendas abaixo do valor normal).

Essa situação contribui para que a oscilação dos preços com tempo seja considerada como comércio desleal. A OMC, contudo, avaliou o zeramento como ilegal. Os Estados Unidos terão entre 20 e 60 dias para se adequar às normas internacionais de comércio.

“O governo brasileiro espera que os Estados Unidos deem cumprimento às determinações do painel no menor prazo possível, em sinal claro de respeito às disciplinas multilaterais de comércio”, disse o Itamaraty em nota.

Além do Brasil, outros nove países (Canadá, União Européia, Japão, Equador, Tailândia, México, Coreia, Vietnã e China) já abriram contenciosos contra os Estados Unidos na OMC a respeito

Por Valor Online

segunda-feira, 21 de março de 2011

Obama, Líbia e Japão

Conflito na Líbia, pesadelo nuclear no Japão, Obama no Brasil – com estes três eventos de primeira grandeza na pauta é compreensível que nossa mídia tenha optado por destacar a visita do primeiro presidente negro a ocupar a Casa Branca.

Apesar de alguns sucessos no esforço de controlar o superaquecimento dos reatores da central nuclear em Fukushima, a médio e longo prazo as notícias que chegam do Japão não são animadoras. A implantação da zona de exclusão aérea na Líbia pedida pela Liga Árabe e sancionada pelas Nações Unidas, embora seja quente, rende poucas imagens: jatos supersônicos levantando vôo ou nuvens de fumaça subindo de alvos distantes não são propriamente empolgantes.

O carismático Barack Obama acompanhado pela charmosa Michelle ao lado da presidente Dilma Rousseff aqui, entre nós – primeiro em Brasília e depois no Rio de Janeiro – contém todos os ingredientes humanos e políticos para se impor aos demais itens da agenda jornalística.

Conselho ampliado

A visita foi exaustivamente coberta, todas as ocorrências e fatos minuciosamente acompanhados, mas as avaliações e análises claudicaram. A hipótese de que o presidente de uma república democrática possa, num passe de mágica ou golpe de caneta, acabar com os subsídios aos seus agricultores passando por cima do Legislativo é de uma ingenuidade ímpar.

Outra elucubração que ocupou manchetes e extensas análises foi motivada pelo substantivo "apreço" utilizado por Obama na avaliação da pretensão brasileira de ter um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Apreço foi um termo considerado insuficiente, o mesmo acontecendo com a designação do Brasil como mero "parceiro" enquanto a Índia tem o status de "aliada". Pura especulação jornalística para fazer barulho.

Jornalistas geralmente sabem quando especulam, mas geralmente se conformam com a especulação porque em política fatos concretos são raros. A ampliação do Conselho de Segurança da ONU não será decidida pelos Estados Unidos sozinho e nem se resumirá a um assento apenas. Tudo indica que os Cinco Grandes decidirão consensualmente uma ampliação significativa: de 15 para 20 ou 21 países de modo a incluir todos os continentes, alguns subcontinentes e privilegiar as maiores potências econômicas, o que significa a inclusão da Alemanha e dos dois Brics ainda de fora: Brasil e Índia.

Dedicação exclusiva

A decisão de Obama em manter a visita ao Brasil enquanto os EUA iniciavam a participação no confronto militar na Líbia é um dado relevante. Vale mais do que as sutilezas e conjecturas que só confundem o distinto público.

O mesmo se deu com a versão de que o ex-presidente Lula recusou participar do almoço em homenagem a Obama ao lado dos seus antecessores porque o convite não veio da Presidência, mas do Itamarati. Pura fantasia. Lula não foi porque faz política em regime full-time e está interessado em assumir-se como líder anti-ianque da América do Sul.

Por Alberto Dines no Observatório da Imprensa

sábado, 12 de março de 2011

Os 10 maiores terremotos já registrados

Na madrugada de quinta para sexta-feira, a costa do Japão foi atingida por um terremoto de 8,9 graus na escala Richter, um dos mais intensos tremores já registrados no mundo desde 1900.

Horas depois, durante a sexta-feira, três novos tremores de 6,2, 6,1 e 6,6 também abalaram o país, que também sofre com tsunamis – ondas gigantes que invadem a terra firme como resultado dos abalos em alto mar.

O epicentro da primeira atividade foi a costa próxima à província de Miyagi, a 373 quilômetros da capital Tóquio. Até agora, especula-se que haja mais de mil mortos.

Os terremotos ocorrem devido ao movimento das placas tectônicas do planeta. Este, registrado no Japão, deve entrar na lista dos mais violentos. Confira abaixo quais são, por enquanto, os 10 maiores terremotos já registrados* desde 1900.

1- 9.5 graus de Magnitude. Chile – 22 de Maio de 1960: 1.655 mortos, 3000 feridos, dois milhões de desabrigados e US$500 milhões de prejuízo ao país.

2- 9.2 graus de magnitude. Príncipe William, Alaska – 27 e 28 de março de 1964: 128 mortos (113 no tsunami e 15 no terremoto) e US$311 milhões em prejuízo.

3- 9.1 graus de magnitude. Costa Oeste do norte de Sumatra – 26 de dezembro de 2004: 227.898 mortos e 1,7 milhão de desabrigados no terremoto e tsunami que atingiu 14 países do sul da Ásia e leste da África.

4- 9.0 graus de magnitude. Península de Kamchatka, Rússia – 11 de abril de 1952: gerou mais de US$1 milhão em prejuízos no Havaí.

5- 8.8 graus de Magnitude. Costa de Maule, Chile – 27 de fevereiro de 2010: pelo menos 521 mortos, 56 desaparecidos, 12 mil feridos, 800 mil desabrigados e 370 mil casas, 4.013 escolas e 79 hospitais danificados.

6- 8.8 graus de magnitude. Equador- 31 de janeiro de 1906 – entre 500 e 1500 mortos.

7- 8.7 graus de Magnitude. Alasca – 4 de fevereiro de 1965: causou prejuízos de US$10 mil.

8- 8.6 graus de magnitude. Norte de Sumatra, Indonésia – 28 de março de 2005: pelo menos 1400 mortos.

9- 8.6 graus de magnitude. Assam, Tibete – 15 de agosto de 1950: pelo menos 780 mortos e 70 vilas destruídas.

10- 8.6 graus de magnitude. Ilhas Andreanof, Alaska – 9 de março de 1957: abriu uma cratera de 4,5 metros e despertou um vulcão adormecido a 200 anos.

*Fonte: Serviço Geológico dos Estados Unidos. Revista INFO.

terça-feira, 1 de março de 2011

Qual é o preço da Terra? (Sim, o preço da Terra.)

Sim, alguém calculou. Não que haja compradores em potencial para o planeta, é claro. Mesmo assim, o astrofísico americano Greg Laughlin, da Universidade da Califórnia, criou uma fórmula matemática para chegar ao valor da Terra – e aos de outros planetas também.

O nosso, no caso, vale três mil trilhões de libras (é uma cifra tão fora da realidade que parece até besteira converter, mas, em todo caso, fica em torno de oito mil trilhões de reais).

Na fórmula (que o cientista não divulgou qual é, mas ok, porque certamente é bem complexa e a maioria de nós não a entenderia, de qualquer forma), entram a idade, o tamanho, a temperatura, a massa e outras informações pontuais sobre cada planeta.

O fim da conta não surpreende: a Terra é o mais valioso do universo. Já Marte, por exemplo, que vem ganhando o carinho da comunidade científica por ser, além do nosso, o planeta mais imediatamente habitável do Sistema Solar, vale apenas 10 mil libras.

Os cálculos não são perda de tempo (não completa, pelo menos): a ideia do pesquisador ao criar a fórmula não era apenas brincar de Banco Imobiliário espacial. Ela vem sendo usada por ele para avaliar as descobertas de novos exoplanetas (planetas localizados fora do nosso Sistema Solar) feitas pela Nasa. “É uma maneira de eu poder quantificar o quão empolgado devo ficar em relação a qualquer planeta em particular”, explica Laughlin.

Descoberto em 2007, o Gilese 581 C, por exemplo, entusiasmou os cientistas logo de cara por parecer o mais similar à Terra – mas a conta final do astrofísico americano deu a ele a etiqueta de apenas 100 libras (olha aí, exoplaneta em promoção!). Já outro, o KOI 326.01, encontrado mais recentemente, foi estimado por ele em cerca de 150 mil libras.

Por Thiago Perin, do Ciência Maluca (Super Interessante)

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Bush é procurado por acusação de tortura

O ex-presidente norte-americano George W. Bush pode ter desaparecido das manchetes dos jornais desde que deixou o cargo, em janeiro de 2009, mas os crimes atribuídos ao seu governo não são esquecidos.

O Centro de Direitos Constitucionais (CCR) divulgou no dia 7 a “acusação preliminar por torturas contra Bush”, um documento que descreve os aspectos centrais do caso contra o ex-presidente e a forma como violou a Convenção Contra a Tortura, assinada pelos Estados Unidos.

O CCR apresentou a iniciativa junto com outras 60 organizações, entre elas o Centro Europeu de Direitos Humanos e Constitucionais, com sede em Berlim. O fato coincidiu com o nono aniversário do dia em que Bush decidiu que os chamados “combatentes inimigos” tinham direito às proteções fundamentais previstas nas convenções de Genebra sobre presos de guerra. Duas vítimas de tortura se propuseram iniciar um processo penal em Genebra contra Bush, cuja chegada à Suíça estava prevista para o dia 12.

Nos casos de tortura, a legislação suíça exige a presença do acusado em seu território antes de iniciar a investigação. Ativistas pelos direitos humanos consideraram que a visita de Bush era a oportunidade perfeita para que esse país cumprisse sua obrigação como signatário da Convenção Contra a Tortura e para que ao ex-presidente chegasse a mensagem de que não gozaria de nenhuma exoneração especial, mesmo sendo ex-chefe de Estado. No entanto, Bush suspendeu a viagem.

“Em novembro de 2009, Bush reconheceu ter autorizado a tortura de presos sob custódia dos Estados Unidos”, disse à IPS a advogada do CCR Katherine Gallagher, também vice-presidente da Federação Internacional de Direitos Humanos. “Supõe-se que somos um país com um sólido Estado de direito e quando agimos com impunidade de forma tão descarada passamos uma péssima mensagem ao mundo”, acrescentou.

O afogamento simulado de um preso “é legal porque os advogados dizem que é legal. Não sou advogado”, disse Bush em novembro de 2010, ao ser entrevistado pelo jornalista Matt Lauer. “Claro que o faria”, respondeu o ex-presidente ao ser perguntado se voltaria a tomar a mesma decisão.

Além do caso apresentado pelo CCR, há mais dois iniciados na Espanha sobre as ações dos advogados constitucionais do governo Bush, o chamado “Bush 6”, autores do manual de tortura e arquitetos do contexto legal que o presidente invocou quando começaram as ações judiciais contra ele. “Os dois temas fazem parte dos esforços para designar responsabilidades que, espero, se fechem sobre os Estados Unidos”, disse Katherine à IPS. “O Bush 6 é integrado por pessoas que pretendem que a tortura seja aceitável, mas não é assim”, acrescentou.

A Casa Branca permanece em silêncio, enquanto juízes, de Madri a Genebra, investem contra o governo anterior. Nem o presidente Obama nem ninguém de seu staff deram apoio a algum dos cidadãos que lutam contra a impunidade. A Anistia Internacional e a Human Rights Watch (HRW) pediram a Washington que investigue de forma exaustiva as denúncias contra Bush e também o fim imediato da impunidade. “Ao menos, deveriam investigar a possibilidade de indiciamento”, disse à IPS a porta-voz da HRW, Laura Pitter. “Não há razão para que os tribunais dos Estados Unidos não iniciem uma investigação desse tipo, mesmo se baseando apenas no que Bush reconheceu publicamente”, acrescentou.

O impassível rosto de Obama ficou descoberto pelos milhares de documentos diplomáticos divulgados pelo Wikileaks no final do ano passado. Os telegramas revelam que seu governo mantinha contatos com funcionários espanhois para manter as investigações ocultas. “É uma grande decepção vindo de um presidente que era professor de direito constitucional”, disse Katherine à IPS. As organizações de direitos humanos acompanham atentas os processos, apesar da indiferença de Washington.

“Bush é um torturador e deve ser lembrado como tal”, disse Gavin Sullivan, do Centro Europeu de Direitos Humanos e Constitucionais. “Ele é responsável por autorizar torturas contra milhares de pessoas em Guantânamo e nos locais secretos que a CIA tem em todo mundo. Bush tem razão de estar preocupado, porque todos os países têm a obrigação de processar os torturadores”, acrescentou. E, talvez, mais importante do que as acusações sejam os sobreviventes, cujas vozes estão apagadas ou continuam ocultos em Guantânamo e que merecem que a justiça seja feita.

Por Kanya D’Almeida, publicado no jornal Brasil de Fato

domingo, 30 de janeiro de 2011

Internet vs. televisão vs. redes sociais

Gradualmente, a internet vai se equiparando à televisão como a principal fonte de informação nacional e internacional do público norte-americano. Em uma pesquisa conduzida pelo Pew Research Center for the People and the Press – realizada de 1º a 5 de dezembro do ano passado com 1.500 pessoas – cerca de 41% dos pesquisados declaram ser a internet a fonte primária de notícias nacionais e internacionais, o que em relação ao ano de 2007 significava apenas 17%.

A televisão continua sendo ainda a referência principal de notícias para 66% dos norte-americanos, índice que por sua vez significava 74% há três anos e 82% em 2002. Esta mesma pesquisa constatou que a maioria das pessoas busca informações sobre notícias mais pela internet do que pelos jornais impressos como sua principal fonte de referência. Este dado mostra a contínua curva de crescimento da internet e a queda constante da leitura de jornais: o índice de leitura era de 34% em 2007 e é de apenas 31% atualmente. Já a proporção do índice de ouvintes de notícias pelo rádio manteve-se relativamente estável. Este índice hoje é de 16% dos que procuram notícias nacionais e internacionais.

Pela primeira vez na série histórica desenvolvida pelo Pew – que é um instituto independente de pesquisa sobre a mídia –, em 2010 a internet superou a televisão como a principal fonte de informações nacionais e internacionais para as pessoas com menos de 30 anos de idade. Desde 2007, o índice de pessoas de 18 a 29 anos que citaram a internet como fonte principal de informações saltou de 34% para 65%, enquanto que no mesmo período o índice de jovens que citaram a televisão como fonte principal diminuiu de 68% para 52%.

Explosão das redes sociais

Os estudantes universitários nesta pesquisa afirmam buscar como fonte principal de informações a internet, com o índice de 51%, enquanto os que procuram a televisão se situam em 54%. Os de nível secundário se colocam de outra forma: 51% citam a internet como fonte principal e 63%, a televisão. O extrato com educação mais inicial faz um bom contraste com os melhores escolarizados: 29% apenas buscam na internet as fontes principais de informação e a maioria de 75% procura a televisão em primeiro lugar.

No caso da televisão brasileira – num levantamento de outra pesquisa publicada pela Folha de S.Paulo em 6/01/2010 –, o SBT perdeu quase 50% do seu público de 2000 até 2010. Ou seja, caiu de 10,4 pontos de média no país para apenas 5,9 pontos, que foi a média do ano passado. A Rede Record cresceu 31% na década passada, pulando de 5,5 pontos para 7,2 pontos como média em 2010. Enquanto a Rede Globo, por sua vez, caiu 8,5% na década. Registrou, no ano de 2000, média de 19,9 pontos e 18,2 pontos em 2010. Ou seja, no ambiente brasileiro também se pode verificar o crescimento das redes mais voltadas para um público menos escolarizado, enquanto os programas mais sofisticados vão sendo consumidos cada vez mais pelos canais pagos e pela internet.

Se é verdade que as pesquisas detectam este gradual crescimento da internet em relação à televisão como fonte primária de informações, no caso das redes sociais o aumento é explosivo: a contagem de tweets aumentou de 5.000 por dia em 2007, para 90.000.000 (noventa milhões) diários em 2010. Somente o Facebook passou de 30 milhões de usuários em 2007 para mais de 500 milhões atualmente.

"A luta pelas liberdades políticas"

Exatamente em função deste poder gigantesco que estas redes sociais foram adquirindo nos últimos anos é que o Departamento de Estado dos EUA, já sob a direção de Hillary Clinton, anunciou em janeiro de 2010 que o governo americano faria um grande investimento para o desenvolvimento de ferramentas desenhadas para reabrir o acesso à internet em países que restringem sua utilização. Este tipo de política teria como alvo impedir que Estados – como a República Popular da China – bloqueiem websites como o Google, YouTube ou o do New York Times.

Alguns programas foram criados com este objetivo, como o Freegate e o Haystack, mas acabaram não se tornando úteis para o objetivo dos norte-americanos, transformando-se, ao contrário, numa ferramenta a mais para impedir que as empresas dos EUA infiltrassem ideias e conceitos para combater o governo central na China. De fato, a questão das redes sociais tornou-se um problema de Estado cada vez mais importante para os interesses norte-americanos no mundo.

A capa da principal revista de relações internacionais dos EUA – Foreign Affairs – edição de janeiro/fevereiro de 2011, é dedicada ao tema sob o título "O poder político da mídia social". A tese principal do artigo é que os Estados Unidos perderam a guerra na tentativa de impedir outros países controlarem a rede social de mídia e que deveriam se voltar para "a luta pelas liberdades políticas nestas sociedades de forma geral", como se isso tivesse sido em algum momento um dos objetivos do governo americano através da história.

Por Pedro de Oliveira, Observatório da Imprensa

sábado, 22 de janeiro de 2011

O império está nu

Em 2010, dois importantes acontecimentos jornalísticos – Top Secret USA e Wikileaks – mexeram com os ânimos do governo dos Estados Unidos, obrigando-o a intervir severamente, visando a ocultar ao grande público alguns dos dados descobertos, que, se publicados, tornariam a situação ainda mais grave.

Os fatos sem precedentes na história acabaram por expor a falácia da tão aclamada “liberdade de imprensa”, fundamento principal do discurso desse país contra seus opositores no mundo – como China, Rússia e Irã, entre outros.

O primeiro dos casos foi a publicação, em 19 de julho, pelo jornal The Washington Post, de ampla matéria de investigação intitulada “Estados Unidos Supersecretos” (Top Secret USA), trabalho de dois anos realizado por uma equipe de vinte jornalistas coordenados por Dana Priest (duas vezes ganhadora do prêmio Pulitzer) e William M. Arkin (especialista em temas de segurança).

A reportagem é uma descrição minuciosa do complexo sistema de inteligência, vigilância e segurança que foi desenvolvido nos EUA após os contra-ataques de 11 de setembro de 2001, mostrando o inchaço de um conglomerado que contém 1.271 agências estatais e, ainda, 1.931 empresas privadas terceirizadas pelo governo, dispostas em cerca de 10 mil localidades espalhadas pelo país e que abarcam 850 mil cidadãos. Ou seja, numa população de 300 milhões, aproximadamente uma pessoa em cada 350 é espiã – com autorização especial para acessar informações confidenciais e realizar ações secretas.

Contudo, a atitude do jornal diante do caso foi bastante morna, centrando-se mais no custo e ineficácia do serviço do que na perigosa coerção burocrática e antidemocrática que vem sendo levada a cabo por tal esquema de espionagem – o que, na prática, constitui um “governo alternativo”, como concluíram diversos analistas.

Ademais, o The Washington Post afirma que, em função da natureza delicada do assunto, funcionários de alto escalão do governo foram autorizados a acessar a investigação, antes de sua publicação, e que, portanto, algumas informações foram retiradas – lembre-se o leitor de que falamos aqui não do cerceamento da liberdade de imprensa no Irã, mas nos Estados Unidos.

Deve-se ser levado em conta também que há certamente uma boa parte de aparato ultrassecreto à qual os repórteres não conseguiriam ter acesso. Assim, dentre os assuntos acessados e não censurados pelo governo, veio à tona a desorganização e sobreposição desse excessivo aparato, em que funcionários e organizações frequentemente desempenham trabalhos iguais, sem que haja um controle central que designe com clareza qual a dimensão de cada uma dessas atividades – em sua maior parte, subcontratada e privatizada em escalas industriais.

Dias depois desse “furo”, foi a vez do primeiro ato do portal Wikileaks, que, agora, se aprofunda num belo segundo ato, que levou a grande autoproclamada “democracia” a promover dura perseguição ao seu líder, o australiano Julian Assange. A repressão à “imprensa livre” foi ainda mais dolorosa pelo ridículo disfarce escolhido – Assange foi preso sob a acusação de estupro e assédio sexual, que teriam ocorrido na Suécia.

Ele negou as acusações, admitindo apenas ter insistido em uma relação sexual sem preservativos – o que é caracterizado no país escandinavo como “estupro leve”. Segundo declarou Assange, essas denúncias não passam de uma “estratégia para desmerecer as revelações” feitas por seu site.

A divulgação de centenas de milhares de documentos procedentes do Exército dos EUA foi logo abraçada por parte da grande imprensa internacional – como The New York Times, The Guardian (Inglaterra) e Der Spiegel (Alemanha). Dentre os dados sigilosos expostos, constam desde casos de espionagem e intervenção em assuntos nacionais externos, praticados por diplomatas, até informes detalhados de diversas atividades militares, em especial, no Afeganistão (desde a invasão do país, em 2001, até dezembro 2009).

Embora o ponto de vista dos relatos de guerra seja aquele de quem participou das ações – o que tende, logicamente, a suavizar a exposição, ou a ocultar as mais comprometedoras –, os textos selecionados pelo portal foram, ainda assim, um baque em Washington, por denunciar crimes de guerra cometidos pela Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e por esquadras secretas de assassinos contratados.

É verdade que a maioria desses fatos relatados já havia sido denunciada de modo esporádico, mas, agora, eles estão documentados publicamente – o que poderá ser usado em juízo – e, ademais, foram colocados de tal modo que trouxeram uma visão de conjunto daquilo que a grande imprensa costuma jogar ao público de maneira recortada e descontextualizada, dificultando a compreensão.

Enquanto a reportagem do The Washington Post expõe que o povo estadunidense vive sob um controle social kafkiano pior do que o da Guerra Fria (e submetido ao interesse privado), os vazamentos de documentos selecionados pelo Wikileaks demonstram clara ingerência imperial, além de jogar luz sobre os horrores e interesses comerciais de uma guerra neocolonial não assumida como tal.

EUA supersecretos – por baixo do pano internamente

A radiografia jornalística do The Washington Post aponta para um aparato de espionagem e segurança tão inchado – especialmente, após 2001 – que não permite que se saiba exatamente sua dimensão ou eficiência. Segundo a reportagem: “o mundo supersecreto que o governo [dos EUA] criou é tão imenso e de difícil controle que ninguém sabe quanto custa, ou quantos serviços distintos executam as mesmas tarefas, sendo impossível saber sua eficácia”.

Através de documentos oficiais e contratos, registros de propriedade, redes sociais e diversas entrevistas feitas nos últimos anos, o jornal afirma que esse “governo alternativo” vem desperdiçando o orçamento público. Somente na região de Washington, desde 2001 foram construídos 33 edifícios exclusivos às tarefas de espionagem – em instalações que ocupam o espaço de três “Pentágonos”, ou 17 quilômetros quadrados.

Já a Agência de Inteligência de Defesa teve, depois de 2001, seu efetivo aumentado de 7.500 empregados para 16.500. No mesmo período, a Agência de Segurança Nacional (encarregada da espionagem eletrônica) teve seu orçamento duplicado. Conforme constatou o fotógrafo Michael Williamson, certos edifícios usados por organizações que fazem parte da inteligência “são prédios que só têm quatro andares para cima, mas têm mais dez andares de subsolo, com um mundo inteiro ali dentro”.

À semelhança de um popular seriado televisivo do país (“Fringe”), a companhia General Dynamics, por exemplo, opera com programas secretos em 99 diferentes locais, tendo contratos com 16 agências de inteligência governamentais, incluindo desde atividades psicológicas a nucleares e de análise de dados secretos.

Apesar de essa intensificação nas atividades detetivescas, o jornal afirma que os resultados não correspondem ao crescimento numérico, devido a sua desorganização. Como exemplo da burocracia inoperante, o texto afirma que 51 agências e programas, tanto civis como militares, têm como mesma função seguir pistas financeiras de redes classificadas como “terroristas”.

Além disso, a reportagem dá ênfase ao fato de que são produzidos anualmente 50 mil relatórios, um volume tão grande que não permite que sejam analisados: “muitos desses informes são simplesmente ignorados”. O próprio secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates, admite que a burocracia “cresceu tanto desde o 11 de Setembro que é muito difícil abarcar toda essa informação”. Já um funcionário do Departamento de Defesa reconheceu, não sem certa ironia, não ter suficiente “longevidade” para “dar conta de tanta informação”.

Assim, há quem questione, com pertinência, se todo esse aparato não teria se tornado uma poderosa indústria visando apenas a lucros. O jornal aponta que em circunstância dessas tantas falhas administrativas, os serviços de inteligência não conseguiram impedir a tentativa de atentado contra um voo Amsterdã-Detroit no Natal de 2009 – frustrado apenas pelos equívocos dos próprios executores –, bem como o massacre de novembro de 2010 em Fort Hood, no Texas, que teve um saldo de treze mortos.

Fontes do governo Obama qualificaram os dados como “problemáticos”, mas sempre batendo na tecla de que tais informações não deveriam ter sido publicadas, pois fragilizam a defesa dos EUA diante de seus “adversários”. Em resposta, o jornalista William Arkin afirmou: “Levamos meses em negociações e discussões com o governo, e não acredito que foi publicado nada que possa ferir a segurança nacional”.

Marcus Brauchli, editor-executivo do jornal, respondeu também às críticas, expondo involuntariamente o controle da imprensa no país: “Fomos muito cautelosos com o que publicamos”, explicando, ainda, que parte da pesquisa foi enviada a funcionários do governo – alguns dos quais inclusive visitaram a redação do jornal para avaliar pessoalmente o andamento dos trabalhos – e, a pedido deles, “alguns dados foram omitidos”. Realmente, seria ingenuidade não se supor que, assim sendo, o mais comprometedor em matéria de direitos humanos deve ter sido censurado.

Tal pressão governamental contra a liberdade de imprensa foi lembrada pela imprensa internacional como semelhante ao caso Watergate – embora sem a mesma dramaticidade, pois, agora, não há diretamente nenhum indício de atividade ilícita do próprio presidente –, quando o mesmo The Washington Post divulgou série de reportagens comprometedoras que culminaram com a queda de Richard Nixon da presidência, em 1974.

O diretor nacional de Inteligência interino David Gompert veio a público para dizer que a reportagem “não reflete a verdade”, e que os obstáculos, “ainda que difíceis”, estão sendo superados. Gompert ocupa o cargo provisoriamente, desde a saída de Dennis Blair, devido às críticas deste à CIA no caso citado da tentativa de explosão do avião no Texas. Já o porta-voz da Casa Branca, mais humildemente, revelou “certa preocupação” com a matéria, na questão econômica, ainda que nada tenha dito acerca do autoritário cerceamento popular, denotado implicitamente pelo texto: “É preciso equilibrar as necessidades de defesa diante de nossos inimigos com os gastos públicos”.

Dentre os quase 850 mil espiões contabilizados, aproximadamente 265 mil (ou um terço) são terceirizados. A contratação de empresas privadas foi, de início, uma solução temporária diante do ataque de 2001, mas acabou por se converter em uma dependência – o que faz com que analistas tenham posto em dúvida, inclusive, se o governo continua tendo sob controle suas atividade mais importantes.

Tanto o secretário de Defesa, Robert Gates, como o diretor da CIA, Leon Panetta, mostraram-se preocupados com essa situação. Dentre as atividades dos agentes terceirizados, estão: o assassinato de combatentes inimigos em emboscadas, a espionagem de governos estrangeiros e redes tidas como terroristas, o recrutamento de espiões para atuar no Iraque, o pagamento de subornos para obter informações no Afeganistão e a proteção de diretores da CIA em viagens. Além disso, esses contratistas foram, por exemplo, os responsáveis pela detenção de “suspeitos” em plena Itália, que, depois de interrogados, foram mantidos em cárceres secretos no exterior.

A terceirização foi a solução de George W. Bush para acelerar as amplas contratações de funcionários para sua luta contra o que chamava de “terrorismo”. As cifras envolvidas são tão altas que os contratistas chegam a receber como “benefícios laborais” carros de luxo BMW e 15 mil dólares de bônus por contrato. Obama, em dois anos de governo, conseguiu diminuir o montante de terceirizados em apenas 7%.

Documentos vazados – por baixo do pano externamente

Quanto aos inúmeros documentos vazados pelo Wikileaks – especialmente sobre a guerra do Afeganistão e ingerências exteriores por parte da diplomacia estadunidense –, Julian Assange afirmou que se trata de um escândalo que pode ser comparado à saga dos Papéis do Pentágono, quando 10 mil documentos confidenciais expuseram ao mundo, nos anos 1970, algumas das atrocidades cometidas pelos estadunidenses na Guerra do Vietnã.

A massiva seleção e publicação de arquivos (reunidos de 2004 a 2009, a maior parte sob o governo Bush) foi, num primeiro momento, condenada pela Casa Branca. Agora, alguns meses depois, com a segunda grande leva de documentação exposta, veio a perseguição aberta.

Em um comunicado, o conselheiro de Segurança Nacional do governo, James Jones, disse que “a divulgação põe em risco a vida dos cidadãos dos EUA e de nossos parceiros”. O início das publicações de documentos ocorreu no começo do segundo semestre de 2010, e deu-se em seguida à detenção do analista de sistemas Bradley Manning, acusado de ter vazado os dados expostos.

Manning foi preso a partir da denúncia de um pirata informático, Adrian Lemo, que o dedurou após ter percebido o envio de 260 mil documentos ao Wikileaks. O conselheiro Jones defendeu Obama, lembrando que ele emitiu, em dezembro de 2009, sua nova estratégia para o Afeganistão, que destina mais recursos à guerra, com vistas a fazer frente aos acampamentos talibãs dentro do Paquistão. “O motivo disso foi justamente a grave situação que se desenvolveu nos anos anteriores”, cutucou.

No ano passado, após a divulgação de acusações de que novos métodos de tortura de prisioneiros tinham sido desenvolvidos e utilizados pela CIA, Obama visitou sua sede em Langley, na Virgínia, onde foi recebido por Panetta. Os relatórios apontam que os métodos aprovados pela administração Bush incluíam manter os presos até onze dias de pé, ou encarcerá-los por dias na completa escuridão.

Insetos também eram usados para atemorizar os prisioneiros. Estes eram, ainda, colocados completamente nus nas celas e submetidos a banhos de água gelada. A publicação provocou polêmicas nos EUA. Diversas organizações civis exigiram que aqueles que aprovaram tais torturas e seus executores fossem processados, mas a decisão de Obama foi a de não levar o caso à Justiça, provocando certa revolta popular.

Execução sumária de supostos membros talibãs sem direito a julgamento, grandes cifras ocultadas de mortes de inocentes civis, operações de espionagem de governos, assassinatos seletivos operados pelo destacamento “373” (inclusive, com uma listagem de figuras de destaque que deveriam ser eliminadas), e, até mesmo, declarações de “atenção” sobre o Brasil – “a única potência da América Latina” – foram algumas das “pérolas”. Os documentos atestam, também, que a série de erros tidos como “colaterais”, bem como o crescente poderio dos Talibãs, têm afetado a confiança da população afegã nas tropas aliadas da Otan.

Dentre os textos, há um publicado pelo The New York Times que acusa o serviço secreto paquistanês (ISI) de apoiar secretamente o Talibã na fronteira afegã, no sul do país, e até mesmo em Cabul – enquanto o governo paquistanês recebia, por seu “apoio” contra os insurgentes, os bilhões de dólares anuais vindos de Washington. O jornal admite que muitas das informações não podem ser comprovadas, mas diz que “numerosos informes se baseiam em fontes que os militares consideram de confiança”.

Um dos textos diz que o “governo do Paquistão permite que representantes de seu serviço secreto reúnam-se com os talibãs em sessões secretas de estratégia, para que sejam organizados grupos de militantes com a função de combater soldados da Otan-EUA e, inclusive, assassinar líderes do governo afegão”.

O britânico The Guardian afirma que esses informes revelam como “uma unidade secreta de forças especiais faz emboscadas contra líderes talibãs para assassiná-los sem julgamento”. Relata também que os registros vazados indicam 144 incidentes com civis afegãos mortos: “Algumas dessas baixas se devem aos ataques aéreos que suscitaram protestos do governo afegão, mas um grande número, até então desconhecidos, parecem ter se dado em função de soldados que abriram fogo contra motoristas ou motociclistas desarmados que se aproximaram, por medo de serem terroristas suicidas”. E completa: “É provável que esses números [de 195 civis mortos citados nos documentos] estejam subestimados, pois muitos incidentes são omitidos dos informes de campo”.

Entre as surpresas trazidas pelo vazamento, estão informações de que os talibãs estão usando mísseis portáteis infravermelhos contra as aeronaves da Otan – armas terra-ar com tecnologia semelhante aos mísseis Stinger (fornecidos aos talibãs pela CIA durante os anos 1980, como forma de apoio à insurgência contra os soviéticos).

O Grande Irmão

Ambos os casos nos levam a refletir sobre os limites da imprensa e a honestidade dos discursos proferidos pela ideologia que os EUA tentam passar como “hegemônica” ao mundo globalizado. Percebe-se, como já levantado, que o The Washington Post reduziu severamente o debate sobre o controle social do cidadão dos EUA a um mero caso de “eficiência” ou de “economia e resultado”.

A timidez da abordagem terminou por gerar uma fraca reação da opinião pública a um tamanho escândalo que diz respeito às liberdades humanas mais caras. Assim, o restante da imprensa acabou esnobando a importância dessa reportagem (e das denúncias do estilo “Grande Irmão” operado pela CIA à revelia da própria presidência). Alguma atenção a mais vem sendo dada ao Wikileaks. Porém, o que se percebe, numa análise mais geral, é que ambos os casos são faces de um mesmo problema de agressão aos direitos humanos – um interno e outro externo.

Quanto ao governo Obama, apesar de algum discurso, ele quase nada realizou de contundente para mudar tal situação – manteve a neurótica orientação “antiterrorista” de Bush. Em junho de 2009, Panetta chegou a anular o Programa Phoenix – mantido em segredo até mesmo perante o Congresso dos EUA –, idealizado pelo vice-presidente de Bush, Dick Cheney e dirigido a assassinar dirigentes da Al-Qaeda.

Estuda-se, também, o fechamento de uma unidade de contrainteligência criada pelo ex-secretário de Defesa de Bush, Donald Rumsfeld, para investigar cidadãos que protestaram contra as guerras dos EUA no Iraque e Afeganistão – o que faz lembrar a espionagem militar de civis que se manifestaram contra a Guerra do Vietnã.

No entanto, em junho de 2010, a Corte Suprema dos EUA confirmou, por seis votos a três, o disposto pelo Ato Patriótico, segundo o qual qualquer pessoa que ofereça assistência legal ou algum tipo de apoio a organizações classificadas pelos EUA como “terroristas” poderá ser processada como “apoiador material” da dita organização.

Como exemplo, há o caso da ONG californiana Projetos de Lei Humanitários, que assessorava o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (que luta contra a opressão dos curdos pela Turquia) em questões de ajuda humanitária e direitos humanos. Segundo a lei, agora ratificada por Obama, essa organização poderá ser processada por “apoiar terroristas”. A procuradora-geral, Helena Kagan, indicada por Obama a magistrada vitalícia da Corte Suprema, resumiu a lei da seguinte forma: “O Hizbollah fabrica armas e também constrói casas – se você o ajuda a construir casas, também o está ajudando a fazer armas”.

No ano passado, ela afirmou que quem fosse suspeito de financiar a Al-Qaeda deveria se submeter às leis de guerra, ou seja, ao que, para o governo dos EUA, implica na possibilidade de detenção indefinida e sem julgamento, e, inclusive, em execuções extrajudiciais – mesmo que a pessoa se encontre fora de local de combate, o que quer dizer, em qualquer lugar do mundo.

Claro que o inimigo a ser perseguido mundo afora continua a ser quem o governo dos EUA (ou a CIA) disser que é. Contudo, agora, o Império terá de enfrentar um inimigo mais difícil de ser exterminado – os neoanarquistas digitais. Camaradas de Assange, eles ameaçaram expor, na ocasião de sua detenção, “toda a documentação” de que dispõe, caso algo de suspeito ou “ilegal” aconteça contra seu líder preso. Além disso, uma rede de ciberativistas tem espalhado as informações do Wikileaks em outras centenas de páginas, de forma que os ataques dos hackers contratados pelos EUA contra o portal de Assange não afete a divulgação dos textos.

E, numa demonstração de força, apoiadores do Wikileaks já partiram para a ofensiva, atacando empresas como MasterCard, Visa, PayPal e Amazon, por terem cedido à pressão do governo dos EUA para prejudicar a estrutura econômica do portal e de seus líderes.

Por Yuri Martins Fontes, em Brasil de Fato

EUA: Caldo de cultura facista


Caldo de cultura é quando fico atado a um videogame treinando matar figuras virtuais. Segundo a Newsweek, o videogame mais vendido nos EUA em 2010 foi o Grand Thief Auto 3 (O grande roubo de carros 3). O jogador progride quanto mais crimes comete. Se o jogador rouba um carro e mata um pedestre, a polícia passa a persegui-lo. Se atira no policial, o FBI aparece. Se assassina o agente federal, os militares entram no caso...

Caldo de cultura é quando meu irmão luta no Afeganistão, assim como meu pai fez no Iraque e meu avô no Vietnã.

Caldo de cultura é, aos 23 anos, entrar numa loja e comprar, sem a menor burocracia, uma pistola Glock 9mm e um pente extra que me permite disparar 33 tiros seguidos sem precisar descarregar – como fez Jared Lee Loughner, em Tucson (Arizona), no sábado, 8/1, matando 6 pessoas, entre as quais o juiz federal John M. Roll, e ferindo gravemente várias, inclusive a deputada democrata Gabrielle Giffords.

Os EUA estão num impasse. A eleição de um presidente negro com discurso progressista não foi digerida por amplos setores racistas e conservadores. O que deu origem ao mais recente caldo de cultura fascista –o Tea Party, liderado por Sarah Palin, ex-governadora do Alasca e candidata a vice-presidenta pelo Partido Republicano em 2008.

(Na foto, a virtual candidata conservadora para a sucessão de Obama em pose nada convencional)

O movimento Tea Party situa-se à direita do Partido Republicano. Para seus adeptos, as liberdades individuais estão acima dos direitos coletivos. Embora muitos sejam contra a guerra, eles coincidem com os ultramontanos ao reprovar a união de homossexuais e a legalização de imigrantes, e defender a abstinência sexual como o melhor preservativo ao risco de aids.

Obama é uma decepção para muitos de seus eleitores. Nas eleições legislativas de novembro foi alta a abstenção entre jovens, negros e latinos que nele votaram. Não parece saber lidar com a crise econômica que afeta o país desde 2008. Muitos perderam suas casas devido ao estouro da bolha especulativa; 8,5 milhões de trabalhadores ficaram sem emprego e 8 milhões carecem de seguro-desemprego. O próprio governo admite que em 2012 a taxa de desemprego ultrapassará 8%.

Malgrado o Nobel da Paz, Obama não pôs fim às guerras no Iraque e no Afeganistão; não reduziu a ameaça terrorista; não avançou no quesito ambiental; não melhorou as relações com Cuba; não reformou o projeto de lei de imigração; e não tem segurança de que sua reforma da saúde será aceita pelo atual Congresso.

Hoje, os EUA estão mais à direita do que na eleição de Obama. No pleito de novembro, o Partido Republicano avançou 63 cadeiras. Agora, são 242 deputados republicanos e 193 democratas.

Obama sente-se encurralado. Não ousa como Roosevelt nem inova como Kennedy. Já agradou os republicanos ao contrariar sua promessa de campanha e anunciar, a 6 de dezembro, a prorrogação dos privilégios tributários aos mais ricos, herança da era Bush. Deu um Papai-Noel de US$ 4 trilhões à elite usamericana. E reduziu de 6,2% para 4,2% o imposto recolhido da folha de pagamento e destinado a financiar a Seguridade Social, agora com menos US$ 120 bilhões!

E o Senado, onde os democratas mantêm maioria, desaprovou, a 18 de dezembro, a legalização de 11 milhões de indocumentados que vivem nos EUA.
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A democracia fica ainda mais ameaçada desde que a Suprema Corte, há um ano, deu sinal verde para as grandes corporações financeiras abastecerem o caixa dois das campanhas eleitorais. Estima-se que nas eleições de novembro os republicanos angariaram US$ 190 milhões, e os democratas a metade. E a turma da privatização da saúde contribuiu com US$ 86,2 milhões para tentar boicotar a reforma proposta por Obama ao setor. Em suma, o modelo usamericano de democracia é refém do dinheiro.

O novo Congresso vai bater forte na tecla de corte de gastos do governo. Isso significa, num país em crise, reduzir os serviços sociais e multiplicar a exclusão social e a criminalidade. Inclusive a dos fanáticos como Loughner, convictos de que as cabeças que não pensam como as deles merecem uma única coisa: bala.

Por Frei Betto, OndaVermelha

sábado, 15 de janeiro de 2011

Na mira do sonho americano

O portal de internet do comitê político de Sarah Palin incluía Gabrielle Giffords, a parlamentar do Arizona, na lista dos 20 membros do Congresso que tinham aprovado a legislação de Obama sobre a saúde. Não era uma lista qualquer. Os nomes apareciam abaixo de um mapa, a cujos estados esses parlamentares pertencem, marcados com a típica cruz de mira telescópica de um rifle. Na parte superior do mapa havia outra legenda belicosa, em que se faz alusão à necessidade de resistir.

A que se deve resistir, senhora Palin? Resposta: a nada menos que a marcha secular em direção ao socialismo que a administração Obama quer impor aos Estados Unidos. Assim mesmo: há uma marcha secular em direção ao socialismo e Obama é o artífice dessa transformação. Essa retórica foi referência repetida de Palin e de outros safados da extrema direita nos Estados Unidos.

Desde que apareceu o mencionado mapa no portal da senhora Palin www.palinpac.com muitas pessoas notaram essa incitação à violência. Mas nem Palin, nem os seus seguidores fizeram algo para mudá-la ou para modificar o tom da retórica utilizada para designar os seus opositores políticos. A senhora Palin introduziu seu mapa dos 20 parlamentares democratas malvados no twitter, com a frase: “Não retrocedam! Ao contrário, recarreguem!”.

Hoje a representante Giffords luta para sobreviver num hospital de Tucson, depois que um fanático disparou contra ela, na cabeça, em 8 de janeiro, no momento em que a parlamentar levava a cabo uma reunião destinada a entrar em contato direto com seus eleitores. O assassino matou 6 pessoas (inclusive uma criança de 9 anos) e feriu outras 14. Pode ser que o homicida Jared Loughner seja uma pessoa perturbada mentalmente, mas isso não elimina a conexão com o discurso da incitação à violência utilizado por Palin e muitos políticos que mantém posições conservadoras nos Estados Unidos.

O opositor de Gifford no mesmo distrito eleitoral em 2010 é Jesse Kelly, membro da extrema direita do Partido Republicano. É provável que este personagem seja quem mais longe foi na incitação à violência. Sua marca de campanha no ano passado incluía a convocatória a um ato com estas palavras: “Dê a vitória em novembro ao branco. Ajude a retirar Gabrielle Giffords de seu posto. Dispare um M16 automático com Jesse Kelly”. O quadro mostrava o político, um ex-marine, com seu uniforme de campanha, empunhando seu querido fuzil.

A militarização da retórica eleitoral nos Estados Unidos não é casualidade. Em meio a sua pior crise econômica em sete décadas, o país cada vez afunda mais numa trajetória de decadência. Seu setor financeiro, outrora orgulho de seu desempenho econômico, foi o epicentro dessa crise. Hoje a triste recuperação promete altos níveis de desempenho para muitos anos. A desigualdade econômica se parece cada vez mais com a de um país subdesenvolvido, dominado por uma oligarquia feroz. A extraordinária concentração de riqueza vai de par com a deterioração do sistema educativo em todo o país. Por último, os desequilíbrios macroeconômicos que marcam a economia estadunidense não são só um problema doméstico, mas, dado o papel chave do dólar no sistema internacional de pagamentos, pioram a dor de cabeça da economia mundial.

O senhor Loughner provavelmente não tem ideia desses problemas. Em seu delírio, pensa que só atua defendendo o Sonho Americano que a senhora Palin reclama para si com tanta insistência. Equivoca-se. O paradoxo é que a deputada Giffords não era a única na mira da nova extrema direita estadunidense. O principal alvo desse movimento é precisamente toda a geração de Loughner, uma geração golpeada e condenada a viver sem educação, sem a promessa de um emprego bem remunerado e estável, sem serviços de saúde adequados. Uma geração perdida que nunca poderá aspirar a um melhor nível de vida. Seu sacrifício é para que uma pequena minoria de privilegiados possam viver o sonho americano, sem sonhar com mais nada.

Samuel Johnson, autor inglês da segunda metade do século XVIII disse que o patriotismo era o último refúgio do canalha. Sua sentença se aplica bem ao caso da extrema direita estadunidense. Ninguém duvida da safadeza de personagens como Palin e alguns pseudo-jornalistas, mas agora se tem a conexão direta com o super patriotismo homicida.

Só que não há que se esquecer que no Arizona já existia um ambiente político protofascista que literalmente tem os imigrantes latinos na mira. A direita e seus aliados nos meios de comunicação foram o motor do clima de ódio que impera não só no Arizona, mas em muitos outros estados. Afinal de contas, como disse Soljenitsin, todo aquele que proclama como método a violência inexoravelmente deverá eleger a mentira como princípio.


Alejandro Nadal é economista, professor pesquisador do Centro de Estudos Econômicos, no Colégio do México. Colaborador do jornal La Jornada.
Tradução para a Agência Carta Maior: Katarina Peixoto

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

China é a pior, quando se trata de censura

Julian Assange diz que Pequim possui tecnologia de interceptação agressiva e sofisticada, e que a WikiLeaks trava uma batalha para garantir o fluxo de informação e que os leitores chineses possam chegar ao site.

O cineasta e jornalista John Pilger entrevistou Julian Assange para a New Statesman. O blog da revista publica alguns extratos da entrevista, traduzidos e reproduzidos abaixo.

"A China é o pior criminoso", quando se trata de censura, diz Assange. "A China tem tecnologia de interceptação agressiva e sofisticada que se coloca no meio de todos os leitores no interior da China, e de todas as fontes de informação no exterior. Estamos a travar uma batalha para garantir que a informação possa passar, e existem hoje todas as formas de os leitores chineses poderem chegar ao nosso site."

Sobre Bradley Manning – o soldado dos EUA acusado de entregar os telegramas diplomáticos à WikiLeaks – Assange diz: "Nunca tinha ouvido o seu nome antes de ter sido publicado na imprensa." Ele argumenta que os EUA estão a tentar usar Manning – atualmente preso em solitária nos EUA – para mover um processo contra o fundador da WikiLeaks:

"Quebrar Bradley Manning é o primeiro passo", diz o hacker australiano. "O objetivo é claramente quebrá-lo e forçá-lo a confessar que de alguma forma ele conspirou comigo para prejudicar a segurança nacional dos Estados Unidos".

Essa conspiração seria impossível, de acordo com Assange. "A tecnologia da WikiLeaks foi projetada, desde o início, de forma a garantir que nunca sabemos a identidade ou nomes de pessoas que enviam material. É tão impossível seguir-hes a pista quanto é impossível censurar-nos. Esta é a única forma de garantir proteção às fontes".

Os advogados Assange advertiram que se ele for extraditado para os Estados Unidos pode enfrentar a pena de morte – para embaraçar os líderes do governo dos EUA. "Eles não querem que o público saiba destas coisas e é necessário encontrar 'bodes expiatórios'", diz Assange.

E, apesar da pressão que o site tem sofrido, os relatos sobre os problemas da WikiLeaks são muito exagerados, afirma Assange.

"Não há 'queda' Nunca publicamos tanto como agora. A WikiLeaks agora é espelhada em mais de 2.000 sites. Não posso controlar os sites que estão a fazer a sua própria WikiLeaks... Se algo acontecer a mim ou à WikiLeaks, serão divulgados arquivos de 'seguro'. "

O conteúdo desses arquivos é desconhecido, mas, de acordo com Assange, "eles falam mais da mesma verdade do poder". Mas não é só o governo que deveria estar preocupado com o conteúdo desses arquivos. "Há 504 telegramas da embaixada dos EUA sobre uma organização de média e há telegramas sobre Murdoch e a News Corp", diz Assange.

As tentativas dos EUA de indiciar Assange deveriam preocupar a imprensa mainstream, acrescenta.

"Acho que está a surgir nos média mainstream a consciência de que se eu posso ser indiciado, outros jornalistas também podem," diz Assange. "Mesmo o New York Times está preocupado. Não costumava estar. Se uma fonte era processada, editores e repórteres estavam protegidos pela Primeira Emenda, coisa que os jornalistas tinham como certo. Isso está a perder-se."

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

A guerra do capital contra a WikiLeaks

Poderá o fenômeno da fuga de informação sustentar o assalto contínuo feito pelo setor empresarial para triunfar na primeira ciber-guerra de sempre? Por Mark LeVine, Al Jazira

Quando o banqueiro suíço nos atira ao mar, sabe-se que se fez alguns inimigos muito poderosos.

Afamado desde há muito por ocultar dinheiro para toda a gente desde os nazis e barões da droga aos espiões e ditadores, o ramo bancário do governo suíço decidiu que a WikiLeaks e Julian Assange eram realmente demasiado quentes de pegar mesmo para ele.

E, assim, o PostFinance, que dirige os bancos do país, declarou no início de Dezembro que tinha "terminado a sua relação comercial com o fundador da WikiLeaks, Julian Paul Assange" depois de acusar o Sr. Assange de – falta de ar! – fornecer informação falsa sobre o seu lugar de residência.

Esta jogada seguiu-se a jogadas semelhantes das companhias de cartões de crédito MasterCard e Visa, bem como da PayPal e da Amazon.com, de deixarem de processar pagamentos à WikiLeaks e, no caso da Amazon.com, de deixarem de alojar os seus dados.

No momento em que escrevo isto, o Bank of America juntou-se à onda crescente de corporações que fazem da WikiLeaks alvo, recusando continuar a processar-lhe pagamentos por causa "da crença razoável de que a WikiLeaks pode estar comprometida com atividades que são, entre outras coisas, inconsistentes com a nossa política interna de processamento de pagamentos".

E pouco depois a própria Apple se juntou ao coro, pondo um ponto final a uma aplicação WikiLeaks dias depois apenas de ter posta à venda no seu Sítio Web iTunes. Todos os setores da economia corporativa, parece, estão a lançar-se na perseguição à WikiLeaks.

Concentrando-se no "neocorporativismo"

Os agentes da CIA, os patrões da máfia e outros clientes bancários suíços desse tipo, os quais foram provavelmente bem menos francos nas suas representações pessoais do que Assange alegadamente é, ter-se-iam também preocupado com a lealdade e a discrição dos seus banqueiros suíços?

Provavelmente não. É que os criminosos do mundo, os autocratas e os espiões fazem bem parte do sistema econômico político global, mesmo se às vezes estão em lados opostos.

Mas a WikiLeaks opera também fora do sistema, procurando ao estilo "Matrix" usar a tecnologia – a Internet – para o "destruir", metendo o nariz e trazendo ao escrutínio público, expondo as conspirações constantes dos poderosos contra o resto da sociedade.

Esta tarefa, argumenta Assange, é a maneira mais importante de ajudar a libertar milhões de vítimas do sistema muitas vezes cúmplices – ainda que não propriamente de boa vontade – e, ao fazê-lo, "mudar ou anular... o comportamento do governo e dos neocorporativistas".

Como teórico político, Assange deixa um pouco a desejar. O "Neocorporativismo" descreve um sistema no qual capital e trabalho se enredam numa relação integrada mas, ao fim e ao cabo, dependente dum aparelho de estado poderoso e autónomo – uma atualização da relação triangular que permitiu o crescimento econômico e os ganhos sem precedentes para a classe trabalhadora no Ocidente nas décadas seguintes à Segunda Guerra Mundial.

Ideologicamente, esta espécie de relação de trabalho de proximidade entre governo, grandes empresas e trabalho organizado é a antítese do sistema neoliberal que a WikiLeaks procura combater.

Mas Assange tem razão em que há algo "neo", se não exatamente novo, na maneira como o setor corporativo se está a comportar hoje e na sua relação com o governo. Repousa em abraçar – ou melhor, voltar a abraçar – o capitalismo financeiro, o império militarista e o complexo industrial militar que o sustenta.

Alimentando-se ora de consumidores inconscientes no meio da América, ora de revoltosos suspeitos no Oriente Médio, estes são dois dos setores mais secretos da economia americana. Dependem de o público saber tão pouco quanto possível sobre os seus feitos mais esconsos para garantir a maior liberdade de ação, os maiores poder e lucros possíveis.

O poder do segredo

O abandono de Assange pelo sistema bancário suíço e pelos seus primos corporativos americanos não é portanto surpreendente. Poucos setores econômicos usaram o segredo e a falta de clareza mais eficazmente do que a banca, os serviços financeiros e as empresas de cartões de crédito.

De fato, as suas práticas de negócios secretas são centrais para a sua capacidade constante de esgadanhar lucros enormes à custa dos americanos trabalhadores e de classe média através da monopolização dos sistemas comerciais, da cobrança de taxas de juros e comissões usurárias, e entregando-se a outras práticas que fariam corar até o mais insensível tubarão solitário.

Se a grande contratualização entre trabalhadores, capitalistas e governos permitiu que as duas primeiras gerações do pós-segunda-guerra-mundial saíssem do liceu diretamente para a classe média, este caminho foi irremediavelmente danificado nos anos 80, quando a direita neoliberal subiu ao poder pela primeira vez.

À medida que os Estados Unidos entraram na sua longa e dolorosa era de desindustrialização a política externa americana tornou-se mais agressivamente militarista; e assim juntar-se aos militares contra a GM ou a Ford tornou-se uma das poucas vias para garantir qualquer espécie do futuro econômico estável (desde que se ficasse no exército).

Sem surpresa, os lucros do setor financeiro ultrapassaram os do setor industrial no início dos anos 90 e não caíram desde então. Mas esses lucros e o crescimento econômico que geraram confiaram desmesuradamente na dívida do governo e dos consumidores e num esvaziamento do setor industrial, o que no seu conjunto ajudou a tornar os EUA "o doente do globo", como disse um economista corporativo sénior.

Pelo seu lado, a GM, a Ford e a Chrysler focaram simultaneamente a maior parte das suas energias na produção de esponjas-de-combustíveis comparativamente lucrativas como os veículos todo-o-terreno, enquanto estabeleciam ramos de serviços financeiros que rapidamente ficaram responsáveis por uma parte substancial dos seus lucros (em alguns anos mais de 90 por cento dos lucros são conseguidos assim).

As suas práticas de empréstimo, vale a pena notar, incluem aquele tipo de empréstimos à habitação "mentirosos", atribuídos com pouca preocupação quanto à capacidade dos tomadores de empréstimo de os pagar e que precipitaram a crise econômica global de 2007 até hoje.

Financiarização e história

Nenhuma dessas práticas teria resistido à luz do escrutínio público, e foi apenas a corporatização – em boa medida a financiarização – da política americana que permitiu que eles florescessem nos últimos trinta anos. Poucas empresas ameaçam tanto aquele segredo como a WikiLeaks e o seu foco tipo laser numa abertura, razão pela qual as suas ações são examinadas em Washington como "atingindo o próprio coração da economia global".

A "financiarização" da economia representa a dominação crescente da economia no seu conjunto pelas indústrias financeiras, assumindo "o papel econômico, cultural e político dominante numa economia nacional".

Crucialmente, este processo não é único nos Estados Unidos; também aconteceu a impérios anteriores, como os impérios dos Habsburgo, holandês e britânico, precisamente nas eras em que eles perderam a sua posição global dominante. Em todos os casos, o financiarismo e o militarismo andaram de mãos dadas, como apontou em primeiro lugar o famoso livro de 1902 do historiador britânico John Hobson "Imperialism: A Study".

Nele Hobson argumentou que a monopolização do setor financeiro criou uma nova oligarquia que uniu os grandes bancos e as firmas industriais juntamente com os "promotores da guerra e especuladores" que encorajaram o imperialismo a garantir mercados para os produtos excedentários das corporações.

A elevação da América à dominação global veio depois do fim da era imperial e portanto não pôde conquistar descaradamente território para criar novos mercados. Mas no momento da sua elevação, os decisores políticos apelaram ao governo para que usasse elevadas despesas militares para garantir um crescimento econômico geral robusto.

Isto coincidiu com a expansão rápida do crédito facilmente obtível, criando dois "buracos negros gigantescos" (nas palavras dos economistas israelitas Shimshon Bichler e Jonathan Nitzan) cujo potencial de expansão foi limitado apenas pela disponibilidade dos cidadãos para apoiar a política que lhes deu aquelas oportunidades, apesar do dano a longo prazo ao bem-estar econômico e político das suas sociedades.

Durante os trinta primeiros anos da era da Guerra Fria a propensão para o militarismo foi equilibrada por uma economia de fabricação robusta e pela relação tripartida governo-trabalho-empresas que a garantiu.

Isto começou a mudar nos anos 70 quando a guerra enormemente cara e lucrativa do Vietname começou a abrandar.

Como Nitzan e Bichler descrevem no seu livro extremamente importante "The Global Political Economy of Israel", começou neste período a "haver uma convergência crescente de interesses entre as principais corporações do petróleo e de armamento do mundo. O politização do petróleo, a par da comercialização das exportações de armas, ajudou a formar uma difícil coligação armamentodólar-petrodólar entre estas companhias".

O mais crucial na análise de Nitzan e Bichler é que uma das formas mais importantes para as indústrias do armamento e do petróleo conseguirem ganhar um desproporcional nível de lucros ("diferencial" como eles o descrevem) foi através da erupção regular de conflitos energéticos no Oriente Médio, que asseguraram tanto preços altos relativos de petróleo como compra de armas.

McDonald's e McDonnell Douglas

À medida que este processo se desenvolveu, os autores explicam que "as linhas que separam o estado do capital, a política externa da estratégia corporativa e a conquista territorial do lucro diferencial, já não parecem muito sólidas".

O colunista do New York Times Thomas Friedman, di-lo de forma mais colorida: "a mão oculta do mercado nunca funcionará sem o punho oculto. A McDonald's não pode florescer sem McDonnell Douglas – e o punho oculto que mantém o mundo seguro para as tecnologias de Silicon Valley florescerem chama-se Exército, Força Aérea, Marinha, e Corpo de Marines dos Estados Unidos".

Isto é o "neocorporativismo" em que Assange e os seus camaradas da WikiLeaks se concentraram, embora hoje, mais de uma década depois de Friedman ter escrito as palavras acima mencionadas, o Master Card seja mais relevante do que a McDonald's.

O problema é que a WikiLeaks não pode sozinha virar o bico ao prego neste conflito.

Assange bem poderia ser "um terrorista de alta tecnologia", como o Vice-Presidente dos Estados Unidos Joseph Biden recentemente lhe chamou, dado o terror com que as suas acções atingiram o coração do sistema político americano.

Mas os EUA são no fim de contas um só num grupo de países e corporações poderosos cujos líderes partilham um compromisso fundamental em garantir para eles mesmos tanto lucro e poder quanto possível, por muito que os seus métodos e a política se diferenciem.

De fato, um olhar sóbrio sobre os dados relevantes revela que a quota dos lucros dos setores financeiros fora dos EUA foi quase sempre significativamente mais alta do que nos EUA, o que significa que o resto do mundo está há muito tempo mais "financiarizado" do que a economia dos Estados Unidos.

Como sempre, o capitalismo e poder nunca estiveram tão convenientemente centrados num país ou região como as pessoas imaginam.

Para ter realmente impacto, a WikiLeaks tem de inspirar uma geração inteira de pessoas que produzam fugas de informação noutros países e culturas, que estejam igualmente dispostos a arriscar a sua liberdade, tal como Assange e outra gente por trás da WikiLeaks. A cultura das fugas de informação começou a ganhar raízes, contudo só o tempo dirá se resiste às forças que agem contra o seu desenvolvimento.

Se tal não acontecer – se os seus inimigos corporativos e políticos conseguirem fazer de Assange e dos seus camaradas um exemplo que assuste os que poderiam ser inspirados por ele – o Capital ganhará provavelmente a primeira "ciber-guerra" do mundo, da mesma forma que ganhou a maior parte das guerras antes dela durante a história longa, sangrenta e inimaginavelmente lucrativa da modernidade.

Mark Levine é músico profissional e professor de História do Médio Oriente na Universidade da Califórnia, Irvine. É autor de meia dúzia de livros, incluindo "Heavy Metal Islam: Rock, Religion and the Struggle for the Soul of Islam" (no prelo, Random House/Verso, CD análogo a ser lançado por MI Records).

As visões expressas neste artigo são do próprio autor e não refletem necessariamente a política editorial da Al Jazira.

Tradução de Paula Sequeiros para o Esquerda.net

Esquerda.net

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Negociações entre UE e Mercosul devem avançar, afirma Soares Pacheco

“O Mercosul e a União Europeia (UE) negociam para avançar, até março, no fechamento de um acordo entre os dois blocos na área comercial. A próxima rodada de discussões ocorrerá em em Bruxelas, na Bélgica. O otimismo parte dos negociadores europeus, apesar das dificuldades em torno de um consenso sobre os subsídios e a redução de tarifas para alguns produtos. Por mais de dez anos, as negociações entre os dois blocos ficaram paradas.

– Vamos ter que liberalizar 90% do nosso comércio, para ser compatível com as regras da Organização Mundial do Comércio. Portanto, fica o resto que temos que discutir como vamos fazer – afirmou o representante da UE no Brasil, o embaixador português João José Soares Pacheco.

Entre as maiores “sensibilidades” de cada bloco, Pacheco coloca, do lado europeu, a área agrícola, citando de forma diferenciada os setores de carnes e açúcar. No Mercosul, o setor industrial é a mais sensível a uma abertura ao livre comércio com a União Europeia.
Há mais de uma década, os dois blocos buscam um acordo bilateral para a área comercial. Em 2004, por total falta de consenso, as negociações foram interrompidas. Depois, os negociadores retomaram as conversas em 2008. Mas o impasse permanece. No ano passado, os europeus fizeram exigências adicionais ao Mercosul.

Uma das exigências dos europeus para o Mercosul era que para exportar para a UE fosse elevada a abertura na indústria para quase 100%. A recomendação sugeria ainda a inclusão do transporte marítimo no setor de serviços e garantias de proteção na área de propriedade intelectual.

Segundo os negociadores do Mercosul, a União Europeia tende a melhorar a oferta agrícola. A expectativa é que o número de cotas que limitam as vendas do Mercosul, sem tarifa no bloco, seja reduzido. No ano passado, as negociações retiraram essa condição para grãos, etanol e lácteos, mas mantiveram para carne bovina, de frango e alho.”

Redação, Correio do Brasil / ABr

domingo, 9 de janeiro de 2011

O afundamento de Chimérica

Agora com a crise global instalada, Chimérica está condenada à desintegração. A população dos Estados Unidos foi atingida e não poderá continuar a ser o consumidor insaciável de que a China precisa.

Nos últimos 20 anos a economia mundial foi dominada por uma relação simbiótica entre a China e os Estados Unidos. Este consórcio baseou-se em vínculos comerciais e financeiros sui generis, por trás dos quais se escondem profundas mudanças estruturais em ambas as economias. A associação foi batizada Chimérica, uma mistura não muito feliz de China e América (porque os norte-americanos insistem em se chamarem a si próprios como o continente).

O complexo Chiméricaassemelhava-se um casamento fracassado. O desenlace poderá, no entanto, ser um divórcio conflituoso em que “todo o bairro” vai ter de pagar os pratos quebrados.

Nesta aliança, algo involuntária, a China era a parte que poupava e produzia enquanto os Estados Unidos eram o consumidor, o gastador inveterado. A China manteve um superavitem conta-corrente durante 20 anos e chegou a acumular reservas internacionais de 2.3 biliões (milhões de milhões) de dólares. Uma boa parte destas reservas são títulos do tesouro norte-americano. Neste processo, os dólares obtidos pela China no mercado mundial eram reciclados e enviados para os Estados Unidos como empréstimo.

Depois dos atentados do 11 de Setembro e do estouro da bolha de 2001, a China mostrou-se preocupada com a queda de valor do dólar. Agora em plena desvalorização da divisa dos Estados Unidos e com as perdas significativas dos investimento chineses no sector imobiliário norte-americano, Pequim, não revela apenas inquietação, mostra também irritação.

A retórica de Geithner sobre a manipulação chinesa da paridade para obter vantagens comerciais não ajudou a acalmar os ânimos. Pequim contra-atacou acusando os Estados Unidos de serem uns “mão-rotas” irresponsáveis (algo parecido com o que faz a Alemanha quando acusa os seus parceiros comerciais da bacia do Mediterrâneo).

Nos Estados Unidos o estímulo fiscal, com a cláusula de compra nacional, veio acompanhado dos primeiros surtos protecionistas. Em meados de 2009, a China aprovou a sua versão da mesma cláusula enquanto os Estados Unidos criaram uma tarifa de 35% a aplicar às importações de rodas provenientes daquele país. Tudo parecia indicar que se ia desencadear uma guerra protecionista. No entanto, esse perigo foi refreado em Washington pelo lóbi que integra mais de 700 empresas norte-americanas que migraram para a China à procura de custos laborais mais baixos.

Do lado monetário, as autoridades do banco central chinês declararam que era necessário substituir o dólar por uma verdadeira moeda internacional. Pequim começou a modificar a composição das suas reservas, a acumular ouro e a tecer alianças com outros países exportadores para impulsionar reformas no sistema monetário internacional. Hoje, os seus acordos de swaps de divisas com muitos países permitem-lhe evitar usar o dólar dos Estado Unidos, nas suas transacções.

Chimérica nasceu com as contradições que enfrentou a economia norte-americana a partir dos anos 70. Um mau desempenho da taxa de rentabilidade conduziu à estagnação dos salários, à queda da taxa de poupança e a um forte endividamento das famílias para manterem o seu nível de consumo. A Reserva Federal manteve uma politica de baixas taxas de juro de longo prazo, facilitando o consumo à população. Mas nenhuma das agências reguladoras pôde avaliar os riscos das diversas bolhas nos preços dos ativos que a forte alavancagem do sector privado trazia associados.

O casamento de conveniência Washington-Pequim assentou na procura de locais de mão-de-obra barata por parte das empresas dos Estados Unidos, e no desejo de resolver um colossal desemprego, por parte da China. Para Pequim, a abertura ao investimento directo estrangeiro era a chave para obter em pouco tempo uma plataforma exportadora que lhe ia permitir elevar o nível de rendimento da sua população. Esta coincidência de necessidades recíprocas foi o que tornou possível urdir as relações económicas que acabaram por integrar a Chimérica.

Agora com a crise global instalada, Chimérica está condenada à desintegração. A população dos Estados Unidos foi atingida e não poderá continuar a ser o consumidor insaciável de que a China precisa. As políticas de austeridade que Washington vai aplicar, de agora em diante apenas aprofundarão a crise, impedindo qualquer tentativa de recuperação.

Por outro lado, Pequim deveria aceitar que a valorização da sua moeda é uma necessidade à escala mundial. Em vez disso, a China parece inclinar-se para a compra de ativos reais nos setores das minas e jazidas de petróleo em diferentes regiões do globo. As suas incursões na bacia do rio Congo revelam que a sua liderança quer assegurar-se de que o acesso aos recursos naturais não será um problema para as necessidades da economia chinesa. Mas nada disto permitirá resolver o problema estrutural de uma política mercantilista como a que a China tem estado a desenvolver.

A desintegração de Chimérica é inevitável. Mas não será um processo tranquilo. Talvez mesmo nem seja pacífico.

Publicado em 22 de Dezembro de 2010 no jornal mexicano La Jornada

Tradução de Natércia Coimbra para esquerda.net

Por Alejandro Nadal de esquerda.net

sábado, 8 de janeiro de 2011

Lady Gaga divulga em Las Vegas óculos de sol que tira fotos

Um novo modelo de óculos de sol que permite tirar fotografias e reproduzi-las nas lentes foram mostrados pela cantora Lady Gaga na feira Consumer Electronics Show (CES) de Las Vegas, em Nevada (EUA), nesta sexta-feira.

Os óculos vão ser vendidos no final deste ano, ainda não preço estipulado. Eles permitirão que a pessoa grave em imagens aquilo que está vendo, além de serem, de acordo com Lady Gaga, "muito utilizáveis". As lentes têm um tela de LED de 1,5 polegadas, que servirá para reproduzir as imagens.

Gaga participou pelo segundo ano consecutivo da CES para promover as novidades da companhia fotográfica e tem o título de diretora criativa da Polaroid. As informações são do "The Washington Post".

A Polaroid apresentou um outro produto, uma impressora portátil do tamanho de um mão capaz de passar para o papel, com uma dimensão máxima de 3x4 centímetros, as fotografias tiradas com câmeras equipadas com Bluetooth. O produto vai está nas lojas em maio no valor de US$ 150.

Redação SRZD

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Nível de corrupção política nos Estados Unidos é assombroso

A luta de classes política nos Estados Unidos
O nível de corrupção política nos Estados Unidos é assombroso. Agora tudo gira em torno do dinheiro para as campanhas eleitorais que se tornaram incrivelmente caras. As eleições da metade do mandato tiveram um custo estimado de US$ 4,5 bilhões, e a maior parte desse dinheiro veio de grandes empresas e contribuintes ricos. Estas forças poderosas, muitas das quais operando de forma anônima sob as leis dos EUA, trabalham sem descanso para defender aqueles que se encontram no topo da pirâmide da riqueza.
O artigo é de Jeffrey Sachs.

Os Estados Unidos estão em rota de colisão consigo mesmo. O acordo firmado em dezembro entre o presidente Barack Obama e os republicanos no Congresso para manter os cortes de impostos iniciados há uma década pelo presidente George W. Bush está sendo saudado como o começo de um novo consenso bipartidário. Creio, ao contrário, que é uma falsa trégua naquilo que será uma batalha campal pela alma da política estadunidense.

Do mesmo modo que ocorre em muitos países, os conflitos sobre a moral pública e a estratégia nacional se reduzem a questões envolvendo dinheiro. Nos Estados Unidos, isso é mais certo do que nunca. O país tem um déficit orçamentário anual ao redor de US$ 1 trilhão, que pode aumentar ainda mais como resultado de um novo acordo tributário. Esse nível de endividamento anual é demasiadamente alto. É preciso reduzi-lo, mas como?

O problema é a política corrupta e a perda de moral cívica dos EUA. Um partido político, o Republicano, aposta em pouco mais do que reduzir os impostos, objetivo que coloca acima de qualquer outro. Os democratas têm um leque mais amplo de interesses, como o apoio ao serviço de saúde, a educação, a formação e a infraestrutura. Mas, como os republicanos, também estão interessados em presentear com profusão cortes de impostos para seus grandes contribuintes de campanha, entre os quais predominam os estadunidenses ricos.

O resultado é um paradoxo perigoso. O déficit orçamentário dos EUA é enorme e insustentável. Os pobres são espremidos pelos cortes nos programas sociais e um mercado de trabalho fraco. Um em cada oito estadunidenses depende de cartões de alimentação para comer. No entanto, apesar deste quadro, um partido político quer acabar com as receitas tributárias por completo, e o outro se vê arrastado facilmente, contra seus melhores instintos, na tentativa de manter contentes seus contribuintes ricos.

Este frenesi de cortes de impostos vem, incrivelmente, depois de três décadas de um regime tributário de elite nos EUA, que favoreceu os ricos e poderosos. Desde que Ronald Reagan assumiu a presidência em 1981, o sistema orçamentário dos Estados Unidos se orientou para apoiar a acumulação de uma imensa riqueza no topo da pirâmide da distribuição de renda. Surpreendentemente, o 1% mais rico dos lares estadunidenses tem agora um valor mais alto que o dos 90% que estão abaixo. A receita anual dos 12 mil lares mais ricos é maior que o dos 24 milhões de lares mais pobres.

O verdadeiro jogo do Partido Republicano é tratar de fixar em seu lugar essa vantagem de receitas e riquezas. Temem, corretamente, que cedo ou tarde todo o mundo comece a exigir que o déficit orçamentário seja atacado, em parte, elevando os impostos para os ricos. Depois de tudo o que ocorreu, os ricos vivem melhor do que nunca, enquanto que o resto da sociedade estadunidense está sofrendo. Tem todo sentido aplicar mais impostos aos mais ricos.

Os republicanos se propõem a evitar isso a qualquer custo. Até aqui tiveram êxito. Mas querem fazer com que sua vitória tática – que propõe o reestabelecimento das taxas tributárias anteriores a Bush por dois anos – seja seguida por uma vitória de longo prazo na próxima primavera. Seus líderes no Congresso já estão dizendo que vão cortar o gasto público a fim de começar a reduzir o déficit.

Ironicamente, há um âmbito onde certamente se justifica fazer grandes cortes orçamentários: as forças armadas. Mas esse é o tema que a maioria dos republicanos não vai tocar. Querem cortar o orçamento não mediante o fim da inútil guerra no Afeganistão e a eliminação dos sistemas de armas desnecessários, mas sim cortando recursos da educação, da saúde e de outros benefícios da classe pobre e trabalhadora.

Ao final, não creio que o consigam. No momento, a maioria dos estadunidenses parece estar de acordo com os argumentos republicanos de que é melhor diminuir o déficit orçamentário mediante cortes de gastos ao invés de aumento de impostos. No entanto, quando chegar a hora de fazer propostas orçamentárias reais, haverá uma reação cada vez maior.

Prevejo que, empurrados contra a parede, os estadunidenses pobres e da classe trabalhadora começarão a se manifestar por justiça social.
Isso pode levar tempo. O nível de corrupção política nos Estados Unidos é assombroso. Agora tudo gira em torno do dinheiro para as campanhas eleitorais que se tornaram incrivelmente caras. As eleições da metade do mandato tiveram um custo estimado de US$ 4,5 bilhões, e a maior parte desse dinheiro veio de grandes empresas e contribuintes ricos. Estas forças poderosas, muitas das quais operando de forma anônima sob as leis dos EUA, trabalham sem descanso para defender aqueles que se encontram no topo da pirâmide da riqueza.

Mas não nos equivoquemos: ambos partidos estão implicados. Já se fala que Obama vai arrecadar US$ 1 bilhão ou mais para sua campanha de reeleição. Esta soma não virá dos pobres.

O problema para os ricos é que, tirando os gastos militares, não há mais espaço para cortar o orçamento do que em áreas de apoio básico para a classe pobre e trabalhadora. Os EUA realmente vão cortar os auxílios de saúde e as aposentadorias? O orçamento será equilibrado reduzindo-se o gasto em educação, no momento que os estudantes dos EUA já estão sendo superados por seus colegas da Ásia? Os EUA vão, de fato, permitir que sua infraestrutura pública siga se deteriorando? Os ricos tratarão de impulsionar esse programa, mas ao final fracassarão.

Obama chegou a poder com a promessa de mudança. Até agora não fez nenhuma. Seu governo está cheio de banqueiros de Wall Street. Seus altos funcionários acabam indo se unir aos bancos, como fez recentemente seu diretor de orçamento, Peter Orszag. Está sempre disposto a atender os interesses dos ricos e poderosos, sem traçar uma linha na areia, sem limites ao “toma lá, dá cá”.

Se isso seguir assim, surgirá um terceiro partido, comprometido com a limpeza da política estadunidense e a restauração de uma medida de decência e justiça. Isso também levará um tempo. O sistema político está profundamente ligado aos dois partidos no poder. No entanto, o tempo da mudança virá. Os republicanos acreditam que têm a vantagem e podem seguir pervertendo o sistema para favorecer os ricos. Creio que os acontecimentos futuros demonstrarão o quanto estão equivocados.

(*) Jeffrey Sachs é professor de Economia e Diretor do Earth Institute da Universidade de Columbia. Também é assessor especial do secretário geral das Nações Unidas sobre as Metas de Desenvolvimento do Milênio.

Traduzido do inglês para www.project-syndicate.org por David Meléndes Tormen.

Tradução para Carta Maior: Katarina Peixoto

Por
Carta Maior

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

O que a WikiLeaks revelou ao Mundo em 2010

À luz do que a WikiLeaks revelou ao mundo acerca de um grande número de governos, é difícil sequer conceber a mentalidade pró-autoritária que levaria alguém a reagir com cólera ao fato de essas coisas serem reveladas. Por Glenn Greenwald, Salon

Ao longo deste ano tenho dedicado uma atenção especial à WikiLeaks, sobretudo nas últimas quatro semanas, consoante os apelos à sua destruição se foram intensificando. Para perceber porque o tenho feito, e entender o que motiva a descrente devoção do governo dos Estados Unidos e daqueles que influencia a destruir a organização, vale a pena passar em revista o que é que a WikiLeaks de facto deu a conhecer ao mundo apenas neste último ano: a extensão de corrupção, fraude, brutalidade e crimes cometidos pelo facções mais poderosas do mundo.

As reações a estas revelações são tão esclarecedoras como as próprias revelações. Grande parte da indignação não tem tido como alvo os crimes expostos, mas quem os expôs: a WikiLeaks e (alegadamente) Bradley Manning. Rapidamente nasceu um consenso nas classes política e jornalística de que ambos são patifes malvados que têm de ser severamente punidos, enquanto os responsáveis por todos os atos que revelaram são ilibados de qualquer culpa. Esta reacção não foi atenuada sequer pelo reconhecimento pelo próprio Pentágono de que, em absoluto contraste com os seus próprios actos, não existem quaisquer provas — zero — de que alguma das acções da WikiLeaks tenha causado uma única morte. Entretanto, a comunicação social americana institucional continua a insistir — mesmo perante todas estas revelações — nos lugares-comuns contraditórios e orwellianos de que a) não existe Nada de Novo™ em qualquer das revelações da WikiLeaks e b) a WikiLeaks provocou Graves Danos à Segurança Nacional Americana™ através das suas publicações.

Não é de todo surpreendente que os líderes políticos queiram convencer as pessoas de que os verdadeiros criminosos são quem expõe actos de corrupção política e crimes ao mais alto nível, em vez de quem os comete. Não há líder político que não gostasse que um acto de fé tão útil fosse dado como adquirido. Mas o que é assustador é o modo como muitos cidadãos, e especialmente "jornalistas", passaram também a acreditar veementemente nisso. À luz do que a WikiLeaks revelou ao mundo acerca de um grande número de governos, é difícil sequer conceber a mentalidade pró-autoritária que levaria um cidadão — para já não falar de um jornalista — a reagir com cólera ao facto de essas coisas serem reveladas. O que leva alguém a insistir que estes factos deviam ser mantidos em segredo e que seria melhor que não soubéssemos e, acima de tudo, exigir que aqueles que nos permitiram ficar a conhecê-los (os Verdadeiros Criminosos) sejam punidos enquanto os autores do que segue (as Boas Autoridades) devem ser protegidos?

Chistian Science Monitor, 5 de Abril de 2010

WikiLeaks divulga vídeo que mostra soldados americanos a matar dois jornalistas da Reuters no Iraque

A WikiLeaks, um sitesem fins lucrativos, divulgou um vídeo de "informantes militares" que parece exibir o assassínio em 2007 de dois jornalistas de Reuters e nove outros iraquianos. O exército dos EUA disse na altura que se tratavam de forças "hostis."

Daily Mail, 7 de Abril de 2010

"Ha ha, atingi-os": Vídeo ultra-secreto que mostra pilotos de helicóptero americano a abater 12 civis em Bagdade colocado on line."

Um vídeo secreto colocado na Internet mostra soldados americanos a rir enquanto um ataque de helicóptero mata cerca de uma dúzia de civis em Bagdade.

The Guardian, 22 de Outubro de 2010

Arquivos de guerra do Iraque: ordem secreta permitiu aos EUA Ignorar abusos

Maus-tratos a prisioneiros indefesos por parte das forças de segurança iraquianas incluíram espancamentos, queimaduras, electrocussões e violações.

The Guardian, 22 de Outubro de 2010

Arquivos de guerra do Iraque revelam 15 000 mortes de civis não registadas

Ficheiros do Pentágono relevados contêm registos de mais de 100 000 vítimas, incluindo 66 000 civis.

Foreign Policy, 29 de Novembro de 2010

Clinton deu ordens aos diplomatas americanos para espiarem funcionários das Nações Unidas

Mother Jones, 1 de Dezembro de 2010

Obama e republicanos trabalharam em conjunto para pôr fim a inquérito sobre responsabilidade de Bush em actos de tortura

Um telegrama da WikiLeaks mostra que quando a Espanha considerou acusar criminalmente antigos funcionários de Bush, a Casa Branca de Obama e os republicanos tornaram-se verdadeiramente bipartidários.

El Pais, 30 de Novembro de 2010

EUA conspiraram para pôr fim a casos na Audiência Nacional

A embaixada americana enviou ameaças relativamente aos casos de Guantanamo, Couso e voos da CIA — políticos e instâncias legais espanholas colaboraram com a estratégia.

Will Bunch, The Philadelphia Inquirer, em resposta aos telegramas de Espanha, 1 de Dezembro de 2010:

O dia em que Barack Obama me mentiu

ACLU, 20 de Novembro de 2010

Segurança Interna | Tortura

EUA exerceram pressão sobre a Alemanha para não agir judicialmente contra oficiais da CIA por tortura e entrega de prisioneiros a países onde ela existe

Material da WikiLeaks revela encontro sobre o cliente da ACLU Khaled El-Masri

Der Spiegel, 9 de Dezembro de 2010

O rapto de El-masri pela CIA

Telegramas mostram que a Alemanha cedeu às pressões de Washington

Ellen Knickmeyer, ex Chefe de Agência do Washington Press em Bagdade, The Daily Beast, 25 de Outubro de 2010

WikiLeaks desmascara mentiras de Rumsfeld

Revelações recentes da WikiLeaks demonstram como os principais líderes americanos mentiram, conscientemente, ao público americano, aos soldados americanos, e ao mundo. Ellen Knickmeyer sobre a carnificina a que assistiu enquanto chefe de agência em Bagdade.

Sydney Morning Herald, 29 de Novembro de 2010

Presidente do Iémen mentiu acerca de ataques americanos

O presidente do Iémen, Ali Abdullah Saleh, admite ter mentido ao seu próprio povo ao alegar que os ataques militares dos EUA contra a Al-Qaeda foram feitos por forças iemenitas, de acordo com um documento americano divulgado.

Salon, 9 de Dezembro de 2010

WikiLeaks revela telegramas em que José Serra queria entregar Pré-Sal para os americanos

Petroleiras foram contra novas regras para pré-sal

Segundo telegrama do WikiLeaks, Serra prometeu alterar regras caso vencesse

Assessor do tucano na campanha confirma que candidato era contrário à mudança do marco regulatório do petróleo

Brasil Informado, 13 de Dezembro de 2010

Ao contrário do que foi publicamente afirmado, o governo de Obama alimentou o conflito no Iémen

Os EUA enviaram armas para a Arábia Saudita para uso no norte do Iémen a mesmo tempo que negavam qualquer participação no conflito.

BBC, 17 de Dezembro de 2010

WikiLeaks: Índia "torturou" prisioneiros de Caxemira

O Comité Internacional da Cruz Vermelha enviou aos diplomatas americanos provas de prática de tortura generalizada pelas forças de segurança indianas em Caxemira, de acordo com telegramas obtidos pela Wikileaks.

BBC, 22 de Dezembro de 2010

Reino Unido treinou "esquadrão da morte" do Bangladesh

Oficiais britânicos no Bangladesh confirmaram informações da WikiLeaks de que o Reino Unido está a treinar uma força policial no país acusada de ser um esquadrão da morte.

Reuters, 1 de Dezembro de 2010

Reino Unido aceitou proteger interesses americanos em inquérito sobre o Iraque

LONDRES (Reuters): O governo britânico deu garantias secretas a Washington de que iria limitar o âmbito de qualquer inquérito à guerra do Iraque para proteger interesses americanoa, de acordo com mensagens diplomáticas divulgadas pelo site de fugas de informação.

MSNBC, 11 de Dezembro de 2010

WikiLeaks revela telegramas em que José Serra queria entregar Pré-Sal para os americanos

Petroleiras foram contra novas regras para pré-sal

Segundo telegrama do WikiLeaks, Serra prometeu alterar regras caso vencesse

Assessor do tucano na campanha confirma que candidato era contrário à mudança do marco regulatório do petróleo

13 de Dezembro de 2010

WikiLeaks: Papa recusou cooperar em investigação sobre abusos sexuais

O embaixador britânico no Vaticano também temeu violência anticatólica perante conversões anglicanas

O papa Bento VI recusou-se a autorizar funcionários do Vaticano a testemunhar numa investigação de uma comissão irlandesa sobre o alegado abuso sexual de crianças por padres, de acordo com os telegramas da diplomacia dos EUA divulgados pela WikiLeaks, noticia o jornal The Guardian.

The Guatemala Times, 28 de Novembro de 2010

WikiLeaks, claro e simples: o caso do golpe nas Honduras

CBS NEWS, 29 de Novembro de 2010

WikiLeaks: China por trás de ataque ao Google

A China esteve por trás de um ataque electrónico à rede informática da Google, de acordo com documentação do governo americano publicada no fim-de-semana pela WikiLeaks.

The Guardian, 30 de Novembro de 2010

Telegramas da WikiLeaks: Forças especiais dos EUA a operar no interior do Paquistão

Os telegramas da embaixada americana revelam que tropas de elite americanas se uniram em segredo ao exército paquistanês para perseguir terroristas.

Eugene Robinson, The Washington Post, 27 de Julho de 2010

WikiLeaks revela os perigos óbvios do Afeganistão

As dezenas de milhar de documentos militares secretos disponibilizados na Internet no domingo confirmam o que os críticos da guerra no Afeganistão já sabiam ou suspeitavam: estamos a arrastar um conflito a longo prazo, moralmente ambíguo, que não tem na prática quaisquer hipóteses de acabar bem.

The Guardian, 25 de Julho de 2010

Arquivos de guerra do Afeganistão: fuga de grandes dimensões de ficheiros secretos expõe a verdade da ocupação

. Centenas de civis mortos por soldados da coligação

. Unidades secretas perseguem líderes para "matar ou capturar"

. Aumento acentuado dos ataques à bomba dos talibãs contra a Nato

Uma cache enorme de ficheiros militares dos EUA secretos fornece hoje um retrato devastador de como a a guerra no Afeganistão está a correr mal, revelando como as forças da coligação mataram centenas de civis em incidentes não comunicados. Os ataques dos talibãs dispararam e os comandantes da Nato temem que os vizinhos Paquistão e Irão estejam a alimentar a sublevação.

E são apenas algumas das verdades que levaram a WikiLeaks — e quem quer que seja o informador — a sacrificar interesses pessoais para revelar estes segredos ao mundo.

Publicado originalmente na Salon

Traduzido por Mariana Avelãs para o Wikifugas


Por Esquerda.net


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