quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Mais de 85% de jovens no Brasil creem em futuro promissor

A juventude brasileira é a segunda mais otimista em relação ao seu futuro pessoal e a terceira a considerar que as perspectivas de seu país são promissoras, segundo a pesquisa “2011 – A Juventude do Mundo”, divulgado pela Fundação para a Inovação Política (Fundapol) da França na noite de terça-feira, 18 de janeiro.

A pesquisa revela as aspirações, os valores e as preocupações atuais dos jovens no mundo. Ela foi realizada em 25 países em cinco continentes, com 32,7 mil pessoas.

Segundo o estudo, 87% dos jovens brasileiros consideram que seu futuro será promissor, atrás apenas dos indianos (90%).

Em relação ao futuro de seus países, o otimismo dos jovens do Brasil fica em terceiro lugar: 72% acreditam que ele também será promissor. Na Índia, o índice foi de 83% e, na China, de 82%.

No entanto, apenas 17% dos jovens gregos, 23% dos mexicanos, 25% dos alemães e 37% dos americanos consideram que o futuro de seus países será promissor.

Os jovens das grandes potências emergentes também são os que mais têm confiança de que terão um bom emprego no futuro. No Brasil, esse índice é de 78%. No Japão, somente 32% acham que isso irá ocorrer.

A juventude da Índia, da China e do Brasil também é a que mais vê a globalização como uma oportunidade e não como uma ameaça. Os números são, respectivamente, 91%, 87% e 81%.

“De uma maneira geral, se considerarmos outros itens da pesquisa, podemos considerar que a juventude brasileira é de longe a campeã de otimismo”, disse à BBC Brasil Dominique Reynié, coordenador-geral do estudo e diretor do centro de estudos francês Fondapol.

Poluição

O vasto estudo, que totaliza mais de 26 mil páginas, abordou 224 temas variados, que vão desde questões econômicas, como emprego e aposentadoria, à confiança nas instituições políticas ou na polícia, além de assuntos ligados à religião, família, sexo, ecologia e internet, entre outros.

Alguns elementos dessa ampla pesquisa, que ainda está sendo compilada em um livro de cerca de 500 páginas, foram divulgados em um evento na noite de terça-feira em Paris.

Segundo a pesquisa, os jovens chineses são os mais preocupados com a poluição (51%). Em uma questão sobre as três maiores ameaças para a sociedade, a poluição, para os chineses, representa um problema maior do que a fome ou a pobreza (43%).

Já no Brasil, 61% afirmam que temem mais a fome ou a pobreza do que a poluição (45%), como na maioria dos países que integram o estudo.

A juventude brasileira é a quarta que se diz mais disposta a dedicar tempo à religião (58%), atrás do Marrocos (90%), da África do Sul (72%) e da Turquia (64%) e à frente de Israel (52%). Já na França e na Espanha, esse índice é de apenas 15%.

Mais de um terço dos jovens brasileiros acha que as relações sexuais só devem ser permitidas no casamento, segundo a pesquisa. A média da União Europeia é de 20%.

Em relação às prioridades para os próximos 15 anos (o questionário permitia escolher três em uma lista de dez), 60% dos jovens indianos afirmam que querem ganhar muito dinheiro.

Mas apenas 24% responderam que ter filhos é um dos projetos importantes nesse período.

No Brasil, ganhar muito dinheiro também é uma prioridade para 47% dos jovens (média semelhante à da União Europeia).

E 39% afirmam que ter filhos é um dos três projetos prioritários nos próximos 15 anos, diz o estudo.

A pesquisa descobriu ainda que 39% dos jovens brasileiros dizem não estar dispostos a pagar pelas aposentadorias das gerações anteriores, somente 27% dizem confiar no Congresso e 62% preferem uma sociedade com distribuição de riquezas a uma sociedade que recompensa o esforço individual – índice próximo aos dos países escandinavos ou da França e bem acima dos outros grandes países emergentes.

Por BBC Brasil

WikiLeaks promete revelar detalhes fiscais de 2.000 ricos

Banqueiro suíço entrega ao fundador da WikiLeaks dados “para educar a sociedade” sobre o montante da receita fiscal potencialmente perdida em esquemas offshore. Por Esther Addley, The Guardian

Julian Assange, o fundador da WikiLeaks, comprometeu-se esta terça-feira a tornar públicas as informações confidenciais fiscais de 2.000 indivíduos ricos e proeminentes, após ter recebido os dados de um banqueiro suíço que afirma que as informações potencialmente expõem casos de lavagem de dinheiro e de evasão fiscal ilegal em grande escala.

Numa entrega cuidadosamente coreografada, em Londres, Rudolf Elmer, ex-executivo sénior do banco suíço Julius Baer, com sede nas ilhas Caimão, disse que estava a entregar os dados à WikiLeaks como parte de uma tentativa de “educar a sociedade” sobre o montante das receitas fiscais potencialmente perdidas devido aos regimes de offshore e de lavagem de dinheiro.

“Como banqueiro, tenho o direito de me erguer contra algo que está errado”, disse ele. “Eu sou contra o sistema. Eu sei como funciona o sistema e conheço o dia-a-dia do negócio. Quero que a sociedade saiba como funciona esse sistema, porque é prejudicial à sociedade”, disse.

Elmer vai comparecer num tribunal suíço esta quarta-feira, acusado de infringir as leis de sigilo bancário suíço, de falsificação de documentos e envio de mensagens ameaçadoras a dois funcionários da sua antiga entidade patronal.

Ele nega as acusações.

Elmer recusou-se a comentar sobre o espaço de tempo coberto pelos dados, contidos em dois CDs, ou a precisa fonte das informações, e também não forneceu os nomes de quaisquer empresas ou indivíduos cujos detalhes bancários estão nos CDs, dizendo que as informações precisam ser investigadas antes de ser levadas ao domínio público.

Assange, que fez a sua primeira aparição pública desde que em Dezembro saiu da prisão sob fiança, devido a alegações de agressão sexual, pelas quais a Suécia procura obter a sua extradição, disse que iria passar as informações para o Serious Fraud Office (SFO), examiná-las, para garantir que as fontes ficam protegidas e, em seguida publicá-las no site da WikiLeaks, potencialmente dentro de “duas semanas”.

“Logo que verificarmos os dados, sim, haverá uma divulgação completa”, disse.

Ele não quis comentar perguntas relativas ao processo de extradição, que será decidido pelos magistrados do tribunal de Belmarsh em 7 de Fevereiro, ou sobre outras fugas de informação que prometeu divulgar em breve, incluindo informação relativa a um “ grande banco dos EUA”, que muitos acreditam ser o Bank of America.

O site ainda não está totalmente funcional, disse. “Ainda não estamos abertos aos negócios públicos. O volume de material que receberíamos é muito alto para os nossos mecanismos internos, mas estamos a receber de outras formas, como esta”, disse. A divulgação de telegramas da diplomacia dos EUA, que o site originalmente fez através do The Guardian e outros quatro meios de comunicação, continuará.

Elmer disse que estava a entregar as informações para a WikiLeaks porque já tinha antes abordado universidades com as informações, mas não lhe deram seguimento. Ele disse que as suas tentativas de interessar os média suíços tiveram apenas como consequência ser apontado como “uma pessoa paranóica, mentalmente doente”.

“Eu estava quase a desistir, mas depois um amigo disse-me: 'Há a WikiLeaks'. Olhei para ele e pensei: 'Esta é a única esperança que tenho que fazer com que a sociedade saiba o que está a acontecer'”.

Em 2008, ele entregou ao site um conjunto muito menor de documentos, também detalhando as informações fiscais de alguns dos clientes do banco. Embora o site nunca tenha publicado essa informação, Julius Baer conseguiu brevemente tirar de linha o site Wikileaks.org, até que o site, apoiado por alguns média dos EUA e organizações de liberdades civis, conseguiu derrubar a medida judicial. Ele também passou a informação às autoridades fiscais dos EUA.

Os dados foram mais tarde vistos pelo Guardian, que encontrou “detalhes de numerosos fundos em que os ricos tinham colocado capital. Isso permite-lhes evitar pagar impostos sobre os lucros, uma vez que legalmente o dinheiro pertence ao fundo.” Os dados também “[parecem] incluir vários casos em que indivíduos ricos tentaram utilizar o dinheiro do fundo, como se fosse seu.”

Numa declaração ao Observer na sexta-feira, Julius Baer disse: “O objetivo das ações [de Elmer] foi, e é, desacreditar Julius Baer, bem como os clientes, aos olhos do público. Com este objetivo em mente, o senhor Elmer espalhou acusações infundadas e repassou documentos ilegalmente adquiridos para os média, e mais tarde também para a WikiLeaks. Para dar apoio à sua campanha, ele também usou documentos falsificados”.

Uma porta-voz do Serious Fraud Office disse que iria “analisar as alegações feitas para determinar se o assunto é da sua competência e está no âmbito dos seus critérios de investigação ou se, possivelmente, é para outra autoridade analisar”.

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

Esquerda.net

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Brasil dobra número de mestres e doutores em dez anos

O número de mestres e doutores titulados no Brasil dobrou nos últimos dez anos. De 2001 a 2010, a quantidade de pesquisadores formados por ano no país passou de 26 mil para cerca de 53 mil, segundo a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

De acordo com o órgão, só em 2010, 12 mil receberam o título de doutor e 41 mil o de mestre. Esses dados constam do balanço final do Plano de Ação em Ciência, Tecnologia e Inovação divulgado pelo governo federal no fim do ano passado.

O documento compila informações de vários órgãos ligados à pesquisa no país e avalia o resultado de um plano de investimento lançado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia em 2007.

Segundo o documento, só em 2009, 161 mil estudantes estavam matriculados em programas de mestrado e doutorado de universidades brasileiras. O número equivale a 90% da soma dos mestres e doutores titulados no país de 2003 até 2009.

“Esses números são extremamente significativos”, afirmou o pró-reitor de Pós-Graduação da Universidade de São Paulo (USP), Vahan Agopyan. “Para padrões latino-americanos, é um crescimento muito grande. Mas ainda temos que avançar”.

Em entrevista à Agência Brasil, Agopyan disse que o aumento na titulação de pesquisadores deve-se principalmente ao investimento governamental. Segundo ele, governo federal e de alguns estados como São Paulo, Paraná e Bahia entenderam a importância da pesquisa para o desenvolvimento do país e, por isso, passaram dar mais atenção ao setor.

Por conta disso, nos mesmos dez anos, o número de cursos de pós-graduação no país também cresceu. Em 2001, eles eram 1,5 mil. Já em 2009, subiram para 2,7 mil. Só as universidades federais têm quase 1,5 mil programas de mestrado ou doutorado.

Além disso, cresceu o número de bolsas de estudo concedidas a estudantes. Em 2001, a Capes e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) concederam 80 mil bolsas de mestrado e doutorado. Em 2010, foram 160 mil.

Todo esse investimento, entretanto, não atingiu às expectativas do ministério. No lançamento do plano de ação, a previsão era de que o Brasil passasse a investir o equivalente a 1,5% do seu Produto Interno Bruto (PIB) em pesquisas até 2010. O montante chegou a 1,25%.

“Empresas também precisam investir em pesquisa”, complementou Agopyan, apontando uma das falhas que o país precisa resolver. “O Brasil é grande. Precisamos formar pelo menos 20 mil doutores por ano”.

A China, por exemplo, investiu 1,44% do seu PIB em 2007. Com isso, formou 36 mil doutores. Já o Japão, um dos países mais inovadores do mundo, investiu 3,44% e formou 17 mil doutores em um ano.

Por Vinicius Konchinski – Agência Brasil

Venda de "Brasil" cresceu 9.000%

Com aumento da desnacionalização, país atraiu mais investimentos que China

O Brasil já apresenta taxa de expansão de investimentos do exterior superior à da China. E, pela primeira vez, está entre o dez maiores destinos de investimentos no mundo, superando economias como Japão e Itália e quase se igualando à Alemanha.

Os dados divulgados pela Conferência da ONU para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad) confirmam uma transformação profunda na economia mundial.

O avanço do Brasil, porém, é fruto, em grande medida, do aumento da desnacionalização da economia, com a transferência de patrimônio nacional crescendo em cerca de 9.000% entre 2009 e 2010. Esse volume é superior ao gasto na China e duas vezes mais que as aquisições mundiais na França.

Pela primeira vez, os emergentes receberam mais investimentos que os ricos, que ainda convivem com estagnação econômica, alta taxa de desemprego e crises no mercado financeiro.

Os dados do Brasil, porém, foram amplamente inflacionados pela transação da Telefónica no mercado nacional. No geral, os investimentos no mundo estagnaram em 2010, com apenas 0,7% a mais que em 2009, o ano da crise.

Em 2010, somaram US$ 1,12 trilhão, ante US$ 1,11 trilhão em 2009. Essa estagnação ocorreu principalmente por causa dos países ricos, com queda de 7% no fluxo de investimentos em 2010.

A Europa registrou recuo de 22% ano passado, e o Japão, de 83%. Países como Irlanda sofreram queda de 66% no fluxo de investimentos, ante 20% na Dinamarca, 55% em Luxemburgo e 38% na Grécia.

Já os Estados Unidos receberam 43% mais em 2010 que em 2009. Mas isso significou apenas recuperação modesta em relação a dois anos de quedas profundas.

Apesar de receber investimentos, o país terminou 2010 com volume equivalente a apenas 50% do que há três anos.

Por Monitor Mercantil

A ascensão dos filhos da classe C

O pedreiro Domingos Ferreira de Sousa, 59 anos, e a mulher Luzia Prudêncio Sousa, 57, comemoram o sucesso dos filhos. “Não tive a oportunidade de estudar, mas estou realizado. Meus meninos se arranjaram na vida”, diz Domingos. Responsável pelo sustento da família, o patriarca sofreu para garantir a educação da prole. Como muitos migrantes, encontrou em Brasília a possibilidade de ascensão. Após concluir a 3ª série do ensino fundamental, iniciou a vida profissional como trabalhador rural no sertão do Piauí, mas foi na construção civil que ergueu o futuro. “Existiam muitas obras na cidade. Foi uma boa opção de emprego”, ressalta.

Quintino dos Santos Sousa, 24 anos, não seguiu os passos do pai, Domingos. Foi além. Com o diploma do ensino médio na mão, fez concurso para o metrô do DF e hoje é agente de estação metroviária. “Lá em casa, tínhamos que estudar. Essa era a única opção para subir na vida e meus pais sempre acreditaram nisso”, conta. Em 2007, ele ingressou na universidade, onde cursa administração. “Ainda pretendo fazer outro curso superior.” Os outros três filhos do casal também alcançaram um nível acima do atingido pelos pais. Na casa de Domingos, moram um estudante de arquitetura, uma professora e uma servidora pública.

A história da família Sousa está se tornando comum. Os filhos da classe C têm cada vez mais acesso à educação. Por causa disso, conseguem empregos que pagam salários melhores e formam a nova classe média emergente do país. Um estudo elaborado pelo instituto Data Popular mostra que, enquanto a moçada de 18 a 25 anos exerce funções como as de atendente em telemarketing e operador de caixa, os mais velhos, de 45 a 65 anos, trabalham, majoritariamente, como pedreiros, cozinheiros e domésticos, empregos que exigem menos qualificação.

Os dados comprovam também que, na classe C, 76% dos jovens trabalham. Nas A e B, o índice cai para 72%. Além disso, os novos emergentes se mostram com maior independência financeira: somente 16% recebem algum tipo de ajuda mensal dos pais. Para os representantes das classes A e B da mesma faixa etária, a mesada chega a 25% dos casos. O percentual de pessoas da classe C que concluíram o ensino fundamental saltou da geração anterior para a atual. O índice foi de 26% dos pais para 65% dos filhos. Cada ano de estudo, até o ensino superior, significa 15% a mais de rendimento.

A mudança atingiu o perfil de consumo da nova geração de trabalhadores. “Com a idade de Quintino, não imaginávamos ter micro-ondas, máquina de lavar e computador, o que nós temos hoje. Ele pode comprar coisas que sempre teve vontade, mas nós não podíamos dar”, comemora Luzia. Detentores de uma renda total de R$ 96,6 bilhões — mais que o dobro das classes A e B —, os jovens da classe C ganharam poder econômico. Com a renda maior que a dos pais, eles contribuem, em média, com 50% do orçamento familiar, contra apenas 10% dos moços e moças mais ricos. “Ele paga água, luz, telefone e ajuda com a alimentação. Isso dá quase metade das nossas contas”, completa Domingos.

O instituto destaca que o poder de compra dos jovens emergentes favorece a exploração, por parte das empresas, de segmentos como alimentação e vestuário. A indústria automobilística também tem boas oportunidades de negócio entre os jovens da classe C. Cerca de 4,8 milhões deles dizem estar interessados em adquirir um veículo e 4,5 milhões, em comprar uma motocicleta. A auxiliar de contabilidade Janaína Ribeiro Soares, 22 anos, filha da empregada doméstica Erinete Ribeiro de Sousa, 39, representa esse dado. “Depois que consegui um emprego, a primeira coisa que pensei foi em realizar o sonho de comprar um carro, o que não seria possível com a renda da minha mãe”, explica. Com a remuneração mensal, ela paga as parcelas da faculdade e do veículo.

Além do efeito positivo nas rendas familiares da classe C, a nova situação econômica teve impacto nas relações sociais. A analista de sistemas Roberta Gomes de Sá, 30 anos, filha da empregada doméstica Maria Florisa Gomes de Sá, 62, explica que sentiu uma diferença expressiva entre a forma com que era tratada antes e depois de ingressar em uma faculdade. “Antes, eu era a filha da empregada. Algumas pessoas se questionavam sobre como eu poderia fazer curso superior”, lamenta. “Não ser tratada assim foi uma consequência, mas não era meu principal objetivo. Eu não me envergonho da minha mãe. Pelo contrário, me orgulho de que ela tenha batalhado por mim.”

No passado, era comum os pais priorizarem o trabalho, como forma de contribuição nos gastos mensais. Agora, a educação é vista com bons olhos pela classe C — muitos consideram o estudo um investimento a longo prazo. A nova geração também tem notado a importância da especialização. Entre os entrevistados pelo Data Popular, 10% gastam parte do salário em cursos para aumentar a escolaridade e alcançar rendimentos ainda maiores. “Estou realizada com o sucesso da Janaína, mas ainda desejo mais”, confirma Erinete. A filha, que cursa o 4º semestre de ciências contábeis, paga a própria faculdade e pretende ir adiante nos estudos. “Devo fazer uma pós-graduação”, prevê.

Doutorado

A assistente social Sandra Teixeira, 30 anos, driblou as dificuldades e alcançou uma posição privilegiada. Filha do porteiro Gilvanez Teixeira, 58, e da dona de casa Ana Ferreira de Oliveira, 58, a jovem não se contentou com a graduação. Depois do mestrado, foi ao exterior para concluir o doutorado. “Ela acabou de chegar da França. Sempre foi muito estudiosa e está colhendo os frutos”, ressalta o pai. “No nosso tempo, isso era uma coisa muito distante, quase impossível.”

Teixeira fez alguns sacrifícios para que suas três filhas estudassem — manteve dois empregos durante muito tempo, assegurando que não faltassem os itens básicos de alimentação e higiene. “Temos de fazer algumas escolhas. Eu nunca deixei que elas trabalhassem enquanto estavam no ensino médio, para não atrapalhar”, diz. Mas quem cuidava das obrigações diárias era a mãe. “Ela que buscava os boletins e acompanhava nossas notas”, afirma Sandra.

A mais nova da casa, Silvia Teixeira, 25 anos, se inspira no exemplo da irmã. “Faço ciências contábeis e pretendo me especializar em condomínios. É uma área bastante promissora no DF”, constata. Para ela, a importância da educação não é apenas financeira. “É também uma satisfação pessoal. Uma maneira de mostrar que temos uma função na sociedade. Com o tempo, conseguimos enxergar isso.”

Participação

Pesquisa da Plano CDE revela que, em 10 anos, as famílias da classe C representarão 41% dos lares brasileiros. “Essa classe sustentará o crescimento do consumo no país”, observou Luciana Aguiar, sócia da consultoria. De 2002 a 2008, a participação dessa faixa na população saltou de 28% para 34%.

Por Larissa Garcia – Correio Braziliense

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O preço de não escutar a natureza

O cataclisma ambiental, social e humano que se abateu sobre as três cidades serranas do Estado do Rio de Janeiro, Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo, na segunda semana de janeiro, com centenas de mortos, destruição de regiões inteiras e um incomensurável sofrimento dos que perderam familiares, casas e todos os haveres tem como causa mais imediata as chuvas torrenciais, próprias do verão, a configuração geofísica das montanhas, com pouca capa de solo sobre o qual cresce exuberante floresta subtropical, assentada sobre imensas rochas lisas que por causa da infiltração das águas e o peso da vegetação provocam frequentemente deslizamentos fatais. Culpam-se pessoas que ocuparam áreas de risco, incriminam-se políticos corruptos que destribuíram terrenos perigosos a pobres, critica-se o poder público que se mostrou leniente e não fez obras de prevenção, por não serem visíveis e não angariarem votos. Nisso tudo há muita verdade. Mas nisso não reside a causa principal desta tragédia avassaladora. A causa principal deriva do modo como costumamos tratar a natureza. Ela é generosa para conosco pois nos oferece tudo o que precisamos para viver. Mas nós, em contrapartida, a consideramos como um objeto qualquer, entregue ao nosso bel-prazer, sem nenhum sentido de responsabilidade pela sua preservação nem lhe damos alguma retribuição. Ao contrario, tratamo-la com violência, depredamo-la, arrancando tudo o que podemos dela para nosso benefício. E ainda a transformamos numa imensa lixeira de nossos dejetos.

Pior ainda: nós não conhecemos sua natureza e sua história. Somos analfabetos e ignorantes da história que se realizou nos nossos lugares no percurso de milhares e milhares de anos. Não nos preocupamos em conhecer a flora e a fauna, as montanhas, os rios, as paisagens, as pessoas significativas que ai viveram, artistas, poetas, governantes, sábios e construtores.

Somos, em grande parte, ainda devedores do espírito científico moderno que identifica a realidade com seus aspectos meramente materiais e mecanicistas sem incluir nela, a vida, a consciência e a comunhão íntima com as coisas que os poetas, músicos e artistas nos evocam em suas magníficas obras. O universo e a natureza possuem história. Ela está sendo contada pelas estrelas, pela Terra, pelo afloramento e elevação das montanhas, pelos animais, pelas florestas e pelos rios. Nossa tarefa é saber escutar e interpretar as mensagens que eles nos mandam. Os povos originários sabiam captar cada movimento das nuvens, o sentido dos ventos e sabiam quando vinham ou não trombas d'água. Chico Mendes com quem participei de longas penetrações na floresta amazônica do Acre sabia interpretar cada ruído da selva, ler sinais da passagem de onças nas folhas do chão e, com o ouvido colado ao chão, sabia a direção em que ia a manada de perigosos porcos selvagens. Nós desaprendemos tudo isso. Com o recurso das ciências lemos a história inscrita nas camadas de cada ser. Mas esse conhecimento não entrou nos currículos escolares nem se transformou em cultura geral. Antes, virou técnica para dominar a natureza e acumular.

No caso das cidades serranas: é natural que haja chuvas torrenciais no verão. Sempre podem ocorrer desmoronamentos de encostas. Sabemos que já se instalou o aquecimento global que torna os eventos extremos mais freqüentes e mais densos. Conhecemos os vales profundos e os riachos que correm neles. Mas não escutamos a mensagem que eles nos enviam que é: não construir casas nas encostas; não morar perto do rio e preservar zelosamente a mata ciliar. O rio possui dois leitos: um normal, menor, pelo qual fluem as águas correntes e outro maior que dá vazão às grandes águas das chuvas torrenciais. Nesta parte não se pode construir e morar.

Estamos pagando alto preço pelo nosso descaso e pela dizimação da mata atlântica que equilibrava o regime das chuvas. O que se impõe agora é escutar a natureza e fazer obras preventivas que respeitem o modo de ser de cada encosta, de cada vale e de cada rio.

Só controlamos a natureza na medida em que lhe obedecemos e soubermos escutar suas mensagens e ler seus sinais. Caso contrário teremos que contar com tragédias fatais evitáveis.

Por Leonardo Boff do Adital

Mestres do ódio carregado e engatilhado

Há uma ligação direta entre os tiros contra a deputada Gabrielle Giffords do Arizona, as ameaças contra Julian Assange e o nono aniversário da infame prisão de Guantánamo. Por Pepe Escobar, Asia Times Online

Há uma aterrorizante conexão direta entre a retórica do ódio que arde como febre alta nos EUA, os tiros contra a deputada Gabrielle Giffords do Arizona, as ameaças de morte contra Julian Assange, fundador de WikiLeaks, e o nono aniversário da infame prisão em Guantánamo, Cuba. Essa conexão perturbadora deveria provocar calafrios na espinha, em quem tenha qualquer preocupação com direitos humanos, por remota que seja. Pois não provoca. Não, pelo menos, nos EUA.

Assange voltará ao tribunal em Londres dia 7 de Fevereiro para audiência de dois dias inteiros sobre a sua possível extradição para a Suécia, conectada ao ultra-nebuloso caso de camisinhas supostamente furadas e “sexo por surpresa”, co-estrelado por duas fans de Assange numa Estocolmo candente, em Agosto passado.

Os advogados de Assange entenderam rapidamente o xis da questão: se ele for extraditado para a Suécia, o governo dos EUA moverá céus e terra até conseguir extraditá-lo para os EUA. Nos EUA, Assange pode ser condenado à morte, ou à pena irmã-gémea dessa, nos termos da “guerra ao terror” – ser mandado para o limbo legal de Guantánamo. Para os EUA, o fato de que os tratados de direitos humanos proíbam extradição nessas condições é coisa de somenos.

Almas simplórias, bem-intencionadas, talvez lembrem que o presidente Barack Obama dos EUA prometeu fechar Guantánamo. Nunca fechará. O Congresso dos EUA matará qualquer possibilidade de transferir “combatentes inimigos” para a pátria-mãe, para que tenham julgamento adequado. A Casa Branca está pronta para condenar pelo menos 40 daqueles prisioneiros a permanecer para sempre em Guantánamo – sem acusação formalizada, sem julgamento, só um buraco negro. E Bagram, no Afeganistão, segue o mesmo caminho. Esqueçam a Constituição dos EUA e a lei internacional.

Os direitos humanos tiveram de aparecer como parte crucial da estratégia de defesa de Assange, em sete partes – porque uma possível extradição viola o Artigo 3 da Convenção Europeia sobre Direitos Humanos. Assim, os advogados de Assange, no sumário inicial de 35 páginas da sua estratégia, foram obrigados a chamar a atenção para a possibilidade real de Assange ser vítima de prisão ilegal, e para “o risco real de ser condenado a pena de morte. Sabe-se que figuras destacadas da cena pública nos EUA já declararam implicitamente, quando não explicitamente, que o Sr. Assange deve ser executado.”

Para que a ideia apareça com clareza para a opinião pública global, a própria WikiLeaks distribuiu um press release, no qual destaca o paralelo inevitável entre a retórica de “peguem Assange” (a ex-governadora do Alaska Sarah Palin diria “recarregue e atire”) e a narrativa dos mestres do ódio da direita, que culminou, até agora, nos tiros contra Giffords. Palin é citada, porque conclamou o governo Obama a “caçar esse chefe da WikiLeaks como os Taliban”.

A estrada à frente só aponta para a radicalização – enquanto o ódio supura, numa configuração que o próprio Assange resumiu como “Orwelliana”. Assim como os ataques contra a WikiLeaks são hoje mais fortes que nunca, assim também cresce o apoio global. E há muito mais a caminho. Até agora, só foram publicados 2.017 telegramas diplomáticos (nesse passo, o arquivo ainda não estará integralmente publicado no final da década). O próximo mega-alvo é o Banco da América. E há ainda preciosidades sobre a China, os EUA e, sim, Guantánamo.

Embora a parceria entre a WikiLeaks e algumas publicações da imprensa global pareça ter chegado a um ponto de equilíbrio em termos jornalísticos, estamos a um passo de guerra declarada entre os que defendem os média como – a palavra já diz tudo – instituição de mediação, e os que apoiam o ethos da WikiLeaks, de descarregar blocos de realidade, com mínima intervenção. Embora nada vença a informação bruta, é essencial alguma contextualização e alguma edição. E o leitor que compare e decida se prefere a versão crua ou as versões filtradas.

O que mais preocupa é o fato de que o ponto crucial do argumento da WikiLeaks – se há políticos e figuras de destaque dos média a promover o homicídio e a incitar ao crime, ele deveriam ser acusados e processados nos termos da lei – não está a ter qualquer ressonância nem nos EUA nem no resto do mundo. Inevitavelmente, como argumenta a WikiLeaks, se a organização continuar a ser estigmatizada como uma espécie de nova al-Qaeda, certamente acontecerão outras tragédias semelhantes à de Tucson, Arizona.

Não há evidência alguma de que os mestres do ódio nos EUA, que infestam o pântano do show mediático e político corram qualquer risco de serem punidos. Não há evidência alguma de que os líderes do Partido Republicano tomarão atitude pública contra a retórica “peguem, matem e arrebentem”. O massacre no Arizona, que matou seis pessoas e feriu 14, já está a ser desqualificado em bloco, pelos círculos da direita, como mais um ato isolado, de mais um dos doidos solitários de sempre.

Portanto, não há sinal algum de que o crescimento acelerado, gráfico, endémico, do fascismo na sociedade dos EUA esteja em vias de começar a ser enfrentado seriamente. Abandonai toda a esperança, vós que ansiais por debate adulto, sereno, racional na política dos EUA. Negócio lastimável, que o pensador político e historiador francês, Alexis de Tocqueville, previu há mais de um século e meio, em A Democracia na América.

Hoje é Giffords. Amanhã pode ser Assange. Mas o verdadeiro alvo somos todos nós.

Traduzido pelo Colectivo da Vila Vudu

Por esquerda.net

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