terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Brasil dobra número de mestres e doutores em dez anos

O número de mestres e doutores titulados no Brasil dobrou nos últimos dez anos. De 2001 a 2010, a quantidade de pesquisadores formados por ano no país passou de 26 mil para cerca de 53 mil, segundo a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

De acordo com o órgão, só em 2010, 12 mil receberam o título de doutor e 41 mil o de mestre. Esses dados constam do balanço final do Plano de Ação em Ciência, Tecnologia e Inovação divulgado pelo governo federal no fim do ano passado.

O documento compila informações de vários órgãos ligados à pesquisa no país e avalia o resultado de um plano de investimento lançado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia em 2007.

Segundo o documento, só em 2009, 161 mil estudantes estavam matriculados em programas de mestrado e doutorado de universidades brasileiras. O número equivale a 90% da soma dos mestres e doutores titulados no país de 2003 até 2009.

“Esses números são extremamente significativos”, afirmou o pró-reitor de Pós-Graduação da Universidade de São Paulo (USP), Vahan Agopyan. “Para padrões latino-americanos, é um crescimento muito grande. Mas ainda temos que avançar”.

Em entrevista à Agência Brasil, Agopyan disse que o aumento na titulação de pesquisadores deve-se principalmente ao investimento governamental. Segundo ele, governo federal e de alguns estados como São Paulo, Paraná e Bahia entenderam a importância da pesquisa para o desenvolvimento do país e, por isso, passaram dar mais atenção ao setor.

Por conta disso, nos mesmos dez anos, o número de cursos de pós-graduação no país também cresceu. Em 2001, eles eram 1,5 mil. Já em 2009, subiram para 2,7 mil. Só as universidades federais têm quase 1,5 mil programas de mestrado ou doutorado.

Além disso, cresceu o número de bolsas de estudo concedidas a estudantes. Em 2001, a Capes e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) concederam 80 mil bolsas de mestrado e doutorado. Em 2010, foram 160 mil.

Todo esse investimento, entretanto, não atingiu às expectativas do ministério. No lançamento do plano de ação, a previsão era de que o Brasil passasse a investir o equivalente a 1,5% do seu Produto Interno Bruto (PIB) em pesquisas até 2010. O montante chegou a 1,25%.

“Empresas também precisam investir em pesquisa”, complementou Agopyan, apontando uma das falhas que o país precisa resolver. “O Brasil é grande. Precisamos formar pelo menos 20 mil doutores por ano”.

A China, por exemplo, investiu 1,44% do seu PIB em 2007. Com isso, formou 36 mil doutores. Já o Japão, um dos países mais inovadores do mundo, investiu 3,44% e formou 17 mil doutores em um ano.

Por Vinicius Konchinski – Agência Brasil

Venda de "Brasil" cresceu 9.000%

Com aumento da desnacionalização, país atraiu mais investimentos que China

O Brasil já apresenta taxa de expansão de investimentos do exterior superior à da China. E, pela primeira vez, está entre o dez maiores destinos de investimentos no mundo, superando economias como Japão e Itália e quase se igualando à Alemanha.

Os dados divulgados pela Conferência da ONU para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad) confirmam uma transformação profunda na economia mundial.

O avanço do Brasil, porém, é fruto, em grande medida, do aumento da desnacionalização da economia, com a transferência de patrimônio nacional crescendo em cerca de 9.000% entre 2009 e 2010. Esse volume é superior ao gasto na China e duas vezes mais que as aquisições mundiais na França.

Pela primeira vez, os emergentes receberam mais investimentos que os ricos, que ainda convivem com estagnação econômica, alta taxa de desemprego e crises no mercado financeiro.

Os dados do Brasil, porém, foram amplamente inflacionados pela transação da Telefónica no mercado nacional. No geral, os investimentos no mundo estagnaram em 2010, com apenas 0,7% a mais que em 2009, o ano da crise.

Em 2010, somaram US$ 1,12 trilhão, ante US$ 1,11 trilhão em 2009. Essa estagnação ocorreu principalmente por causa dos países ricos, com queda de 7% no fluxo de investimentos em 2010.

A Europa registrou recuo de 22% ano passado, e o Japão, de 83%. Países como Irlanda sofreram queda de 66% no fluxo de investimentos, ante 20% na Dinamarca, 55% em Luxemburgo e 38% na Grécia.

Já os Estados Unidos receberam 43% mais em 2010 que em 2009. Mas isso significou apenas recuperação modesta em relação a dois anos de quedas profundas.

Apesar de receber investimentos, o país terminou 2010 com volume equivalente a apenas 50% do que há três anos.

Por Monitor Mercantil

A ascensão dos filhos da classe C

O pedreiro Domingos Ferreira de Sousa, 59 anos, e a mulher Luzia Prudêncio Sousa, 57, comemoram o sucesso dos filhos. “Não tive a oportunidade de estudar, mas estou realizado. Meus meninos se arranjaram na vida”, diz Domingos. Responsável pelo sustento da família, o patriarca sofreu para garantir a educação da prole. Como muitos migrantes, encontrou em Brasília a possibilidade de ascensão. Após concluir a 3ª série do ensino fundamental, iniciou a vida profissional como trabalhador rural no sertão do Piauí, mas foi na construção civil que ergueu o futuro. “Existiam muitas obras na cidade. Foi uma boa opção de emprego”, ressalta.

Quintino dos Santos Sousa, 24 anos, não seguiu os passos do pai, Domingos. Foi além. Com o diploma do ensino médio na mão, fez concurso para o metrô do DF e hoje é agente de estação metroviária. “Lá em casa, tínhamos que estudar. Essa era a única opção para subir na vida e meus pais sempre acreditaram nisso”, conta. Em 2007, ele ingressou na universidade, onde cursa administração. “Ainda pretendo fazer outro curso superior.” Os outros três filhos do casal também alcançaram um nível acima do atingido pelos pais. Na casa de Domingos, moram um estudante de arquitetura, uma professora e uma servidora pública.

A história da família Sousa está se tornando comum. Os filhos da classe C têm cada vez mais acesso à educação. Por causa disso, conseguem empregos que pagam salários melhores e formam a nova classe média emergente do país. Um estudo elaborado pelo instituto Data Popular mostra que, enquanto a moçada de 18 a 25 anos exerce funções como as de atendente em telemarketing e operador de caixa, os mais velhos, de 45 a 65 anos, trabalham, majoritariamente, como pedreiros, cozinheiros e domésticos, empregos que exigem menos qualificação.

Os dados comprovam também que, na classe C, 76% dos jovens trabalham. Nas A e B, o índice cai para 72%. Além disso, os novos emergentes se mostram com maior independência financeira: somente 16% recebem algum tipo de ajuda mensal dos pais. Para os representantes das classes A e B da mesma faixa etária, a mesada chega a 25% dos casos. O percentual de pessoas da classe C que concluíram o ensino fundamental saltou da geração anterior para a atual. O índice foi de 26% dos pais para 65% dos filhos. Cada ano de estudo, até o ensino superior, significa 15% a mais de rendimento.

A mudança atingiu o perfil de consumo da nova geração de trabalhadores. “Com a idade de Quintino, não imaginávamos ter micro-ondas, máquina de lavar e computador, o que nós temos hoje. Ele pode comprar coisas que sempre teve vontade, mas nós não podíamos dar”, comemora Luzia. Detentores de uma renda total de R$ 96,6 bilhões — mais que o dobro das classes A e B —, os jovens da classe C ganharam poder econômico. Com a renda maior que a dos pais, eles contribuem, em média, com 50% do orçamento familiar, contra apenas 10% dos moços e moças mais ricos. “Ele paga água, luz, telefone e ajuda com a alimentação. Isso dá quase metade das nossas contas”, completa Domingos.

O instituto destaca que o poder de compra dos jovens emergentes favorece a exploração, por parte das empresas, de segmentos como alimentação e vestuário. A indústria automobilística também tem boas oportunidades de negócio entre os jovens da classe C. Cerca de 4,8 milhões deles dizem estar interessados em adquirir um veículo e 4,5 milhões, em comprar uma motocicleta. A auxiliar de contabilidade Janaína Ribeiro Soares, 22 anos, filha da empregada doméstica Erinete Ribeiro de Sousa, 39, representa esse dado. “Depois que consegui um emprego, a primeira coisa que pensei foi em realizar o sonho de comprar um carro, o que não seria possível com a renda da minha mãe”, explica. Com a remuneração mensal, ela paga as parcelas da faculdade e do veículo.

Além do efeito positivo nas rendas familiares da classe C, a nova situação econômica teve impacto nas relações sociais. A analista de sistemas Roberta Gomes de Sá, 30 anos, filha da empregada doméstica Maria Florisa Gomes de Sá, 62, explica que sentiu uma diferença expressiva entre a forma com que era tratada antes e depois de ingressar em uma faculdade. “Antes, eu era a filha da empregada. Algumas pessoas se questionavam sobre como eu poderia fazer curso superior”, lamenta. “Não ser tratada assim foi uma consequência, mas não era meu principal objetivo. Eu não me envergonho da minha mãe. Pelo contrário, me orgulho de que ela tenha batalhado por mim.”

No passado, era comum os pais priorizarem o trabalho, como forma de contribuição nos gastos mensais. Agora, a educação é vista com bons olhos pela classe C — muitos consideram o estudo um investimento a longo prazo. A nova geração também tem notado a importância da especialização. Entre os entrevistados pelo Data Popular, 10% gastam parte do salário em cursos para aumentar a escolaridade e alcançar rendimentos ainda maiores. “Estou realizada com o sucesso da Janaína, mas ainda desejo mais”, confirma Erinete. A filha, que cursa o 4º semestre de ciências contábeis, paga a própria faculdade e pretende ir adiante nos estudos. “Devo fazer uma pós-graduação”, prevê.

Doutorado

A assistente social Sandra Teixeira, 30 anos, driblou as dificuldades e alcançou uma posição privilegiada. Filha do porteiro Gilvanez Teixeira, 58, e da dona de casa Ana Ferreira de Oliveira, 58, a jovem não se contentou com a graduação. Depois do mestrado, foi ao exterior para concluir o doutorado. “Ela acabou de chegar da França. Sempre foi muito estudiosa e está colhendo os frutos”, ressalta o pai. “No nosso tempo, isso era uma coisa muito distante, quase impossível.”

Teixeira fez alguns sacrifícios para que suas três filhas estudassem — manteve dois empregos durante muito tempo, assegurando que não faltassem os itens básicos de alimentação e higiene. “Temos de fazer algumas escolhas. Eu nunca deixei que elas trabalhassem enquanto estavam no ensino médio, para não atrapalhar”, diz. Mas quem cuidava das obrigações diárias era a mãe. “Ela que buscava os boletins e acompanhava nossas notas”, afirma Sandra.

A mais nova da casa, Silvia Teixeira, 25 anos, se inspira no exemplo da irmã. “Faço ciências contábeis e pretendo me especializar em condomínios. É uma área bastante promissora no DF”, constata. Para ela, a importância da educação não é apenas financeira. “É também uma satisfação pessoal. Uma maneira de mostrar que temos uma função na sociedade. Com o tempo, conseguimos enxergar isso.”

Participação

Pesquisa da Plano CDE revela que, em 10 anos, as famílias da classe C representarão 41% dos lares brasileiros. “Essa classe sustentará o crescimento do consumo no país”, observou Luciana Aguiar, sócia da consultoria. De 2002 a 2008, a participação dessa faixa na população saltou de 28% para 34%.

Por Larissa Garcia – Correio Braziliense

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O preço de não escutar a natureza

O cataclisma ambiental, social e humano que se abateu sobre as três cidades serranas do Estado do Rio de Janeiro, Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo, na segunda semana de janeiro, com centenas de mortos, destruição de regiões inteiras e um incomensurável sofrimento dos que perderam familiares, casas e todos os haveres tem como causa mais imediata as chuvas torrenciais, próprias do verão, a configuração geofísica das montanhas, com pouca capa de solo sobre o qual cresce exuberante floresta subtropical, assentada sobre imensas rochas lisas que por causa da infiltração das águas e o peso da vegetação provocam frequentemente deslizamentos fatais. Culpam-se pessoas que ocuparam áreas de risco, incriminam-se políticos corruptos que destribuíram terrenos perigosos a pobres, critica-se o poder público que se mostrou leniente e não fez obras de prevenção, por não serem visíveis e não angariarem votos. Nisso tudo há muita verdade. Mas nisso não reside a causa principal desta tragédia avassaladora. A causa principal deriva do modo como costumamos tratar a natureza. Ela é generosa para conosco pois nos oferece tudo o que precisamos para viver. Mas nós, em contrapartida, a consideramos como um objeto qualquer, entregue ao nosso bel-prazer, sem nenhum sentido de responsabilidade pela sua preservação nem lhe damos alguma retribuição. Ao contrario, tratamo-la com violência, depredamo-la, arrancando tudo o que podemos dela para nosso benefício. E ainda a transformamos numa imensa lixeira de nossos dejetos.

Pior ainda: nós não conhecemos sua natureza e sua história. Somos analfabetos e ignorantes da história que se realizou nos nossos lugares no percurso de milhares e milhares de anos. Não nos preocupamos em conhecer a flora e a fauna, as montanhas, os rios, as paisagens, as pessoas significativas que ai viveram, artistas, poetas, governantes, sábios e construtores.

Somos, em grande parte, ainda devedores do espírito científico moderno que identifica a realidade com seus aspectos meramente materiais e mecanicistas sem incluir nela, a vida, a consciência e a comunhão íntima com as coisas que os poetas, músicos e artistas nos evocam em suas magníficas obras. O universo e a natureza possuem história. Ela está sendo contada pelas estrelas, pela Terra, pelo afloramento e elevação das montanhas, pelos animais, pelas florestas e pelos rios. Nossa tarefa é saber escutar e interpretar as mensagens que eles nos mandam. Os povos originários sabiam captar cada movimento das nuvens, o sentido dos ventos e sabiam quando vinham ou não trombas d'água. Chico Mendes com quem participei de longas penetrações na floresta amazônica do Acre sabia interpretar cada ruído da selva, ler sinais da passagem de onças nas folhas do chão e, com o ouvido colado ao chão, sabia a direção em que ia a manada de perigosos porcos selvagens. Nós desaprendemos tudo isso. Com o recurso das ciências lemos a história inscrita nas camadas de cada ser. Mas esse conhecimento não entrou nos currículos escolares nem se transformou em cultura geral. Antes, virou técnica para dominar a natureza e acumular.

No caso das cidades serranas: é natural que haja chuvas torrenciais no verão. Sempre podem ocorrer desmoronamentos de encostas. Sabemos que já se instalou o aquecimento global que torna os eventos extremos mais freqüentes e mais densos. Conhecemos os vales profundos e os riachos que correm neles. Mas não escutamos a mensagem que eles nos enviam que é: não construir casas nas encostas; não morar perto do rio e preservar zelosamente a mata ciliar. O rio possui dois leitos: um normal, menor, pelo qual fluem as águas correntes e outro maior que dá vazão às grandes águas das chuvas torrenciais. Nesta parte não se pode construir e morar.

Estamos pagando alto preço pelo nosso descaso e pela dizimação da mata atlântica que equilibrava o regime das chuvas. O que se impõe agora é escutar a natureza e fazer obras preventivas que respeitem o modo de ser de cada encosta, de cada vale e de cada rio.

Só controlamos a natureza na medida em que lhe obedecemos e soubermos escutar suas mensagens e ler seus sinais. Caso contrário teremos que contar com tragédias fatais evitáveis.

Por Leonardo Boff do Adital

Mestres do ódio carregado e engatilhado

Há uma ligação direta entre os tiros contra a deputada Gabrielle Giffords do Arizona, as ameaças contra Julian Assange e o nono aniversário da infame prisão de Guantánamo. Por Pepe Escobar, Asia Times Online

Há uma aterrorizante conexão direta entre a retórica do ódio que arde como febre alta nos EUA, os tiros contra a deputada Gabrielle Giffords do Arizona, as ameaças de morte contra Julian Assange, fundador de WikiLeaks, e o nono aniversário da infame prisão em Guantánamo, Cuba. Essa conexão perturbadora deveria provocar calafrios na espinha, em quem tenha qualquer preocupação com direitos humanos, por remota que seja. Pois não provoca. Não, pelo menos, nos EUA.

Assange voltará ao tribunal em Londres dia 7 de Fevereiro para audiência de dois dias inteiros sobre a sua possível extradição para a Suécia, conectada ao ultra-nebuloso caso de camisinhas supostamente furadas e “sexo por surpresa”, co-estrelado por duas fans de Assange numa Estocolmo candente, em Agosto passado.

Os advogados de Assange entenderam rapidamente o xis da questão: se ele for extraditado para a Suécia, o governo dos EUA moverá céus e terra até conseguir extraditá-lo para os EUA. Nos EUA, Assange pode ser condenado à morte, ou à pena irmã-gémea dessa, nos termos da “guerra ao terror” – ser mandado para o limbo legal de Guantánamo. Para os EUA, o fato de que os tratados de direitos humanos proíbam extradição nessas condições é coisa de somenos.

Almas simplórias, bem-intencionadas, talvez lembrem que o presidente Barack Obama dos EUA prometeu fechar Guantánamo. Nunca fechará. O Congresso dos EUA matará qualquer possibilidade de transferir “combatentes inimigos” para a pátria-mãe, para que tenham julgamento adequado. A Casa Branca está pronta para condenar pelo menos 40 daqueles prisioneiros a permanecer para sempre em Guantánamo – sem acusação formalizada, sem julgamento, só um buraco negro. E Bagram, no Afeganistão, segue o mesmo caminho. Esqueçam a Constituição dos EUA e a lei internacional.

Os direitos humanos tiveram de aparecer como parte crucial da estratégia de defesa de Assange, em sete partes – porque uma possível extradição viola o Artigo 3 da Convenção Europeia sobre Direitos Humanos. Assim, os advogados de Assange, no sumário inicial de 35 páginas da sua estratégia, foram obrigados a chamar a atenção para a possibilidade real de Assange ser vítima de prisão ilegal, e para “o risco real de ser condenado a pena de morte. Sabe-se que figuras destacadas da cena pública nos EUA já declararam implicitamente, quando não explicitamente, que o Sr. Assange deve ser executado.”

Para que a ideia apareça com clareza para a opinião pública global, a própria WikiLeaks distribuiu um press release, no qual destaca o paralelo inevitável entre a retórica de “peguem Assange” (a ex-governadora do Alaska Sarah Palin diria “recarregue e atire”) e a narrativa dos mestres do ódio da direita, que culminou, até agora, nos tiros contra Giffords. Palin é citada, porque conclamou o governo Obama a “caçar esse chefe da WikiLeaks como os Taliban”.

A estrada à frente só aponta para a radicalização – enquanto o ódio supura, numa configuração que o próprio Assange resumiu como “Orwelliana”. Assim como os ataques contra a WikiLeaks são hoje mais fortes que nunca, assim também cresce o apoio global. E há muito mais a caminho. Até agora, só foram publicados 2.017 telegramas diplomáticos (nesse passo, o arquivo ainda não estará integralmente publicado no final da década). O próximo mega-alvo é o Banco da América. E há ainda preciosidades sobre a China, os EUA e, sim, Guantánamo.

Embora a parceria entre a WikiLeaks e algumas publicações da imprensa global pareça ter chegado a um ponto de equilíbrio em termos jornalísticos, estamos a um passo de guerra declarada entre os que defendem os média como – a palavra já diz tudo – instituição de mediação, e os que apoiam o ethos da WikiLeaks, de descarregar blocos de realidade, com mínima intervenção. Embora nada vença a informação bruta, é essencial alguma contextualização e alguma edição. E o leitor que compare e decida se prefere a versão crua ou as versões filtradas.

O que mais preocupa é o fato de que o ponto crucial do argumento da WikiLeaks – se há políticos e figuras de destaque dos média a promover o homicídio e a incitar ao crime, ele deveriam ser acusados e processados nos termos da lei – não está a ter qualquer ressonância nem nos EUA nem no resto do mundo. Inevitavelmente, como argumenta a WikiLeaks, se a organização continuar a ser estigmatizada como uma espécie de nova al-Qaeda, certamente acontecerão outras tragédias semelhantes à de Tucson, Arizona.

Não há evidência alguma de que os mestres do ódio nos EUA, que infestam o pântano do show mediático e político corram qualquer risco de serem punidos. Não há evidência alguma de que os líderes do Partido Republicano tomarão atitude pública contra a retórica “peguem, matem e arrebentem”. O massacre no Arizona, que matou seis pessoas e feriu 14, já está a ser desqualificado em bloco, pelos círculos da direita, como mais um ato isolado, de mais um dos doidos solitários de sempre.

Portanto, não há sinal algum de que o crescimento acelerado, gráfico, endémico, do fascismo na sociedade dos EUA esteja em vias de começar a ser enfrentado seriamente. Abandonai toda a esperança, vós que ansiais por debate adulto, sereno, racional na política dos EUA. Negócio lastimável, que o pensador político e historiador francês, Alexis de Tocqueville, previu há mais de um século e meio, em A Democracia na América.

Hoje é Giffords. Amanhã pode ser Assange. Mas o verdadeiro alvo somos todos nós.

Traduzido pelo Colectivo da Vila Vudu

Por esquerda.net

domingo, 16 de janeiro de 2011

Facebook vale mesmo US$ 50 bilhões?

Em 2009, a revista Rolling Stone descreveu o banco de investimentos Goldman Sachs como "uma enorme hidra vampiresca" que gosta de grudar seu "funil de sangue" em qualquer coisa que represente dinheiro. A hidra sugou mais um negócio dos grandes. Associado ao grupo russo Digital Sky Technologies (DST), o Goldman Sachs investiu a cifra de 500 milhões de dólares no Facebook, valorizando a mais popular rede social para um incrível patamar de 50 bilhões de dólares. O banco também tem planos de gerenciar um fundo que canalizará para a empresa 1,5 bilhão de dólares de ricos investidores.

Para o Facebook, o negócio proporciona uma montanha de dinheiro a mais para investir em coisas como novos centros de informações e aquisições. Traz combustível para aumentar o crescimento sem o inconveniente de ter que listar suas ações em bolsas de valores. Para o Goldman Sachs, a transação representa uma oportunidade de grudar seu "funil" numa empresa de internet que faz seus investidores babarem. Além do benefício que usufruirá com a valorização do Facebook, o banco pretende sugar contribuições para o gerenciamento do novo fundo. E, sem dúvida, ao se aproximar dos manda-chuvas do Facebook, está acelerando as possibilidades de liderar uma possível oferta pública inicial [IPO, na sigla em inglês] pelas ações da empresa.

As notícias do negócio desfecharam um debate enérgico. O valor implícito do Facebook quintuplicou desde meados de 2009, mas os céticos duvidam que uma firma cujo modelo de negócios não foi comprovado possa valer mais que gigantes da mídia já estabelecidos, como a Time Warner.

Um salto de tirar o fôlego

Uma vez que o Facebook não é obrigado a divulgar informações financeiras, é difícil saber ao certo se o Goldman Sachs e a DST – que já possuíam uma parte considerável das ações do Facebook – estão fazendo um pagamento supervalorizado. Mas os otimistas do Facebook argumentam que a escala da rede será irresistível para os anunciantes. Debra Aho Williamson, da empresa de pesquisas eMarketer, destaca que o Facebook até começou a atrair anunciantes deliberadamente conservadores – e abastados –, como a Procter & Gamble.

A empresa também começa a parecer cada vez mais um monopólio natural. A rede MySpace (Meu Espaço), que já dominou a arena das redes sociais, vem se parecendo My Empty Space (Meu Espaço Vazio). Consta que estaria em vias de fazer novos cortes na força de trabalho. E as start-ups da rede – como o Twitter, que também viu seu valor disparar (para 3,7 bilhões de dólares) – têm receitas que não passam de uma fração daquela do Facebook que, segundo dizem, chegou a 2 bilhões de dólares no ano passado.

Entretanto, os 50 bilhões de dólares do Facebook parecem um exagero. Se suas vendas realmente forem de 2 bilhões de dólares por ano, isso significa que o Goldman Sachs e a DST estariam pagando o valor de 25 receitas anuais por suas ações. Isso seria um salto mortal de tirar o fôlego, mesmo pelos padrões estonteantes do mundo das start-ups.

As regras da SEC

Além do mais, o Facebook está longe de ter um modelo sólido de publicidade, como, por exemplo, o Google, cujos anúncios relacionados com busca são oferecidos aos usuários quando estes estão a ponto de fazer uma compra. Grande parte da receita do Facebook vem da exibição de anúncios de pé de página. E, embora venha a se beneficiar do crescente interesse de publicitários em promoções boca-a-boca, a empresa terá de batalhar por esses dólares com a mídia tradicional, cujo conteúdo também a torna atraente à publicidade das redes sociais.

Apesar disto, os investidores ainda estão se digladiando para ter acesso às ações do Facebook – e o Goldman Sachs está disposto a ajudá-los, desde que concordem em aceitar algumas regras. Consta que os clientes que pensam em se associar ao fundo do Facebook estão sendo sondados para fazer um depósito de, pelo menos, 2 milhões de dólares cada um e, além disso, não negociar quaisquer ações que venham a receber pelo menos até 2013.

Um problema distinto para o Facebook e o Goldman Sachs é que o fundo planejado pelo banco poderia ter problemas com a Comissão de Segurança e Câmbio [Securities and Exchange Commission – SEC, o equivalente americano à brasileira Comissão de Valores Mobiliários]. No dia 3 de janeiro, uma corretora que trabalha com ações de empresas privadas, a SecondMarket, disse que recebera um questionário da SEC sobre fundos de investimentos em pool, criados para comprar ações de companhias privadas – exatamente o tipo de veículo que o Goldman Sachs planeja para possíveis investidores do Facebook.

Nos meses recentes, várias outras instituições financeiras criaram veículos de objetivos específicos semelhantes que fazem investimentos nas ações das empresas, o que chamou a atenção da SEC. Isso suscitou previsões de que medidas regulatórias poderão vir a tratar tais entidades não como um acionista individual, mas como um grupo de investidores individuais. Isso poderia ter implicações importantes para as companhias em que eles investem. Uma das regras da SEC exige que empresas privadas com 500 ou mais acionistas registrados em determinado tipo de ação publiquem, a cada quatro meses, relatórios financeiros feitos por auditoria. Diante de tais obrigações, a maioria das empresas procura abrir o capital na bolsa de valores. Essa regra foi um dos motivos que levou o Google, em última instância, a tornar-se público em 2004.

Uma delicada questão de equilíbrio

Tornar-se público, agora, seria um pesadelo para o Facebook e Mark Zuckerberg, seu fundador e principal executivo, de quem consta que disse que gostaria de adiar uma oferta pública inicial (IPO) pelo maior prazo possível. Também consta que a empresa teria menos de 500 acionistas no final do ano passado, incluindo empregados e capitalistas que investiram em pool. Portanto, não há dúvida de que a esperança é evitar ter seus braços torcidos.

Aparentemente, o Facebook e o Goldman Sachs têm a lei de seu lado. Joseph Grundfest, professor na Faculdade de Direito de Stanford e ex-integrante da SEC, assinala que a regra em questão determina, de maneira clara, que um fundo como aquele planejado pelo Goldman Sachs deveria ser tratado como um acionista individual. "Se alguém disser que o Goldman Sachs está violando a lei, obviamente desconhece a lei", diz ele. Se medidas regulatórias interpretassem a regra de outra forma, as consequências iriam longe e atingiriam, por exemplo, as indústrias de capital aberto em pool, nas quais fundos com múltiplos investidores frequentemente investem em empresas privadas.

No entanto, alguns observadores dizem que a SEC poderá ser tentada a concluir que o novo gênero de veículos específicos que vem sendo criado por investidores como o Goldman Sachs foram especificamente planejados para funcionar na regra dos 500 acionistas. Potencialmente, poderão abarcar uma quantidade mais ampla de investidores do que um fundo de investimentos em pool típico e poderão atrair uma verificação mais precisa.

As medidas regulatórias devem proteger os investidores e avaliar as preocupações das empresas que preferem se manter privadas. Trata-se de uma delicada questão de equilíbrio. Mas qualquer pessoa que invista num mercado tão efervescente sabe, com certeza, que também corre riscos. No meio tempo, o Goldman Sachs e outros bancos que esperem tornar esses veículos um grande negócio deveriam pensar em fazer amizade com bons advogados.

Observatório da Imprensa

Quem tem medo de cotas na TV?

Aprovado na Câmara dos Deputados após três anos de intensa discussão, o projeto de lei nº 29 seguiu em 2010 para tramitação no Senado, batizado agora de PLC 116. Afinal, do que trata o PLC 116? Entre outras medidas importantes, permite a entrada das empresas de telefonia no mercado de TV por assinatura. Beirando hoje 10 milhões de assinantes, prevê-se a triplicação desse mercado.

A concorrência obrigará uma melhoria dos serviços e seu consequente barateamento. Quem ganha com isso é o consumidor, "surrado" por serviços nem sempre eficientes, com canais internacionais muitas vezes mal adaptados ao mercado brasileiro, como se fôssemos o mesmo público da Argentina ou do Paraguai, constantemente obrigado a assistir ao lixo internacional.

O Brasil mudou, cresceu, se modernizou. A TV em geral e a TV por assinatura em particular devem acompanhar essa transformação.

Isso passa pelo conteúdo brasileiro, assim como foi anos atrás com a indústria fonográfica.

Agentes do mercado

Não temos que provar mais nada a ninguém: nossos filmes são assistidos por multidões. Nossas produções independentes para TV – séries, animações, documentários, programas regulares e especiais – registram alto índice de audiência.

Não faz sentido supor que o assinante brasileiro não queira se ver em sua própria tela. Esse sentimento de vergonha e de baixa estima, felizmente, parece ter ficado para trás. Temos boas histórias, bons profissionais, bons artistas. Afinal, somos brasileiros e desejamos nos ver também na TV por assinatura.

Com cota ou sem cota. Quem tem medo de uma cota simbólica de mínimas três horas e meia por semana? Na verdade, para a produção independente a cota é de apenas a metade: uma hora e 45 minutos por semana. A outra metade, segundo o projeto de lei, é de conteúdo oferecido pelos canais.

Assistimos na TV por assinatura a mais produções independentes estrangeiras do que à nossa própria produção independente.

Queremos ter espaço para os nossos conteúdos. Essa discussão toda já aconteceu ao longo desses anos em que o projeto de lei tramitou na Câmara dos Deputados, com todos os agentes desse mercado: canais abertos, canais brasileiros e internacionais por assinatura, produtores independentes, operadores, teles, governo, agências reguladoras e entidades representativas do setor, o que resultou na sua aprovação pela Câmara.

Dois anos

Gostaria de conclamar todos aqueles que ainda tenham resistências ao PLC 116 – que será tratado na nova legislatura do Senado no início deste ano-a se apresentar ao debate às claras, de forma transparente, sem medo da defesa legítima de seus interesses, para que, uma vez aprovada a lei no Senado, possa seguir para regulamentação e atender a todos os envolvidos.

Lembrando que o projeto prevê um período de dois anos para que o mercado se adapte. Essa é uma construção coletiva e não deveria ser uma batalha de bastidores.

Observatório da Imprensa

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