segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Investimento da União atinge 3,5% do PIB

O investimento da União e das estatais federais subiu pelo sétimo ano seguido em 2010, atingindo perto de 3,5% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo números da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda. O volume investido é um pouco superior aos 3,26% do PIB de 2009 e mais que o dobro do 1,59% do PIB registrado em 2003. As inversões do governo federal tiveram um impulso mais significativo em 2006, ganhando fôlego nos anos seguintes com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), de 2007.

Entre as estatais, o grande destaque é a Petrobras, que, sozinha, investiu o equivalente a 2,03% do PIB nos 12 meses até outubro. É quase 70% a mais que o 1,21% do PIB investido pela União nos 12 meses até novembro de 2010. Uma pequena parte dos investimentos da Petrobras é feita fora do país, em torno de 5% do total.

Nesse quadro, a União e as estatais federais responderam por 17,9% do total investido na ampliação da capacidade produtiva no ano passado, considerando que a formação bruta de capital fixo (FBCF, medida das contas nacionais do que se investe na construção civil e em máquinas e equipamentos) ficou em 19% do PIB em 2010 e a Petrobras faz 95% das inversões dentro do país. Em 2009, a fatia federal no investimento total havia sido um pouco maior – 18,7% de uma formação bruta de capital fixo de 16,9% do PIB.

Isso ocorreu porque, com a crise global, as inversões públicas se ampliaram no momento em que o setor privado se retraiu. Os números de 2009 e 2010 mostram que houve mudança significativa da participação da União e das estatais no investimento total em relação aos anos anteriores. Em 2003, ano de forte ajuste fiscal, a fatia foi de 10%. Mesmo em 2008, quando o investimento público já estava em recuperação, não chegou a 13,5%.

As inversões do governo federal ganham força a partir da segunda metade da década, depois de alguma recuperação esboçada em 2004 e 2005. O professor Francisco Luiz Lopreato, da Unicamp, diz que houve uma mudança de orientação na política econômica a partir de 2006, abrindo espaço para uma elevação mais consistente do investimento público.

Entre outras medidas, ele lembra que o governo lançou o PAC e fortaleceu as estatais e os bancos públicos, como o BNDES, além de ter reduzido o superávit primário (a economia para pagar os juros da dívida) a partir de 2009, para combater os efeitos da crise global. Com isso, os investimentos federais atingiram um nível que já faz diferença para a atividade econômica, acredita Lopreato. “A visão se tornou mais desenvolvimentista a partir de 2006, com a saída de Antonio Palocci e a entrada de Guido Mantega na Fazenda.”

Para o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, houve uma percepção de que os investimentos precisavam se intensificar “desde 2007, com o PAC.” O problema, na visão de Vale, é que o “programa ainda não funciona efetivamente, com muita concentração em projetos da Petrobras e da Eletrobras “.

Ele reconhece a “tentativa de aceleração dos investimentos” a partir da crise global, mas observa que, mesmo com a alta recente, o volume de investimento público no Brasil é pequeno em relação ao dos outros emergentes, “onde, em geral, fica acima de 7% do PIB”. Se forem incluídas as inversões de Estados e municípios, o volume investido pelo setor público brasileiro em 2010 ficou em 5,1% do PIB, segundo números do Ministério da Fazenda.

Vale também vê com preocupação o fato de o volume de investimentos ser muito concentrado na Petrobras, que responde por quase 60% da soma de gasto da União e das estatais federais em 2010.

A análise das inversões da Petrobras ao longo da década mostra um salto impressionante a partir de 2002, quando a empresa passou a investir mais que a União. Em 2009, o volume investido pela companhia, equivalente a 1,97% do PIB, foi quase duas vezes superior ao 1,01% do investimento do governo federal. Para os próximos anos, a expectativa é que a empresa continue nessa trajetória, por conta da exploração do petróleo na camada pré-sal.

O economista Cláudio Fritschak, presidente da Inter.B Consultoria Internacional de Negócios, diz que houve um esforço nos últimos anos para aumentar o investimento público, mas também considera muito baixo o volume destinado à infraestrutura. Ele estima que, entre 2008 e 2010, o país investiu no setor, somando recursos públicos e privados, uma média anual de 2,42% do PIB, abaixo dos 3% do PIB que seriam necessários para evitar a degradação do estoque de capital já existente.

Para Frishtak, enfrentar a questão fiscal é decisivo para elevar os recursos para a infraestrutura, por dois motivos. O primeiro é controlar o ritmo de alta dos gastos correntes (pessoal, aposentadorias, custeio da máquina) para abrir espaço para o investimento público crescer mais. O outro é permitir uma redução dos juros que facilite a criação de um mercado de títulos privados de longo prazo, importante para desenvolver alternativas para financiar o investimento por períodos dilatados.

Um dos principais desafios do governo neste ano será manter em alta a trajetória do investimento num quadro de ajuste fiscal. Se quiser buscar a todo custo a meta de superávit primário de 3,1% do PIB, será necessário sacrificar investimentos, dizem especialistas em contas públicas como Mansueto Almeida, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Para Vale, como os investimentos são prioridade para a presidente Dilma Rousseff, não deverá haver corte das inversões, que tenderiam a continuar a crescer acima da variação do PIB. Uma das consequências é que a meta fiscal não deverá ser cumprida, acredita ele.

Por Sergio Lamucci – Valor Econômico

domingo, 23 de janeiro de 2011

WikiLeaks, a ciberguerra começou

Que o WikiLeaks mudou a forma de entendermos o sistema de informação mundial, já é algo lógico. Mas compreender como essa mudança está se dando e que cultura gerou esse tipo de experiência são questões que precisamos discutir para entender o novo processo. A professora Ivana Bentes é a entrevistada de hoje pela IHU On-Line sobre o tema. Por telefone, ela falou sobre a ciberguerra que as revelações trazidas a público pelo WikiLeaks provocaram e as possibilidades que a inserção da cultura digital no processo de educação das crianças e jovens pode trazer para o campo da comunicação. "Eu fico feliz que, neste primeiro momento, nós estamos tendo sinais de que o governo brasileiro entendeu que essas políticas de inclusão digital são decisivas para pensar no Brasil 2.0 e que isso é importantíssimo para a democracia brasileira. Não é uma questão de consumo simplesmente, de inserção da classe C ou de novos grupos sociais no consumo de internet, isso é decisivo para a construção de uma nova democracia participativa", disse.

Ivana Bentes é graduada em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde fez o mestrado e o doutorado em Comunicação e, atualmente, é professora e Diretora da Escola de Comunicação da UFRJ.

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A questão do anonimato é um conceito muito importante

É uma ciberguerra o que o WikiLeaks provocou com suas revelações?

Ivana Bentes – Sem dúvida. Mas não seria a primeira porque a guerra da informação já existe há muito tempo, inclusive como dado de estratégia e de poder. No entanto, com essa dimensão e repercussão, sem dúvida nós podemos qualificar como um primeiro momento de uma ciberguerra no sentido global. Na verdade, todas as informações que estão reveladas e veiculadas colocam em questão a própria ideia de uma certa geopolítica global. Neste sentido, em relação à amplitude da própria ideia de governança global, o tipo de prática de explicitação de documentos vai totalmente contra a ideia de teoria do segredo, do segredo de estado, empresarial e da conspiração de poucos contra muitos.

Por isso, o WikiLeaks é um fenômeno, uma experiência muito paradigmática de um outro modelo de relação de todo mundo com a informação. Acredito que coloca muitos conceitos e muitas relações em xeque. Podemos falar de infoguerra ou guerra da informação (um conceito que já existia) a partir do uso do ciberespaço e da ideia do anonimato, em função de uma possibilidade de proliferação infinita destas informações nos provedores e usuários do mundo inteiro. Sem dúvida, nesta escala podemos dizer que é a primeira infoguerra global.

Como você analisa a forma de "trabalho" do WikiLeaks?

I.B. – É um modelo da nova relação que estamos tendo com a informação. Colocamos uma série de conceitos em questão. O primeiro conceito é em relação a essa ideia do direito ao anonimato. Ou seja, no momento em que as informações dizem respeito a decisões de vida e morte de populações, elas mobilizam e interferem na geopolítica global, na vida de países, de cada um de nós, de comunidades. A questão do direito à informação é maior do que qualquer outro tipo de segredo.

Trabalhar com a ideia da disponibilização de forma anônima de documentos que estavam fora do círculo da informação e eram considerados secretos e estratégicos é um conceito muito importante. Como apenas o governamental ou o setor empresarial tinha acesso a esses dados, quando a informação é propagada se cria um conceito forte da ideia de que o público comum está acima das estratégias, inclusive de segurança dos países. Assim, trabalhar com a questão do anonimato é ainda um conceito muito importante de quem analisa as questões ligadas às mídias digitais.

Não existe informação que não seja passível de ser publicizada

O anonimato na web

I.B. – A questão do anonimato não significa você fazer qualquer coisa, sem se importar com o motivo pelo qual está fazendo aquilo. O anonimato utiliza essa questão da preservação da fonte, inclusive de quem posta e de onde vieram esses documentos, para podermos tornar público informações que não sendo desta forma não chegariam a todo mundo. Aliás, essa prática não é nova: a imprensa tradicional utilizava a preservação da fonte quando a informação que vai ser veiculada é mais importante do que a própria credibilidade da fonte.

Portanto, esses documentos em si, as informações que eles trazem em termos de democracia, em termos de violação dos direitos humanos, em termos de governanças e operações grandes sobre a saúde global são mais importantes do que a forma tradicional do jornalismo indicar o que é off e o que não é off. O primeiro conceito que o WikiLeaks quebra é a ideia de que não existe mais off. Não existe informação secreta, não existe a teoria do segredo, isso é decisivo para se pensar um novo modelo de democracia baseado na transparência. Parece-me que essa é a questão de fundo: o WikiLeaks traz, de uma forma muito forte, que já não existe informação que não seja passível de ser publicizada e isso é muito radical. Precisamos de um entendimento tanto do senso comum quanto do conceito de democracia, pois isso é uma radicalização da democracia, não existe segredo de Estado; não existe segredo que não possa ser revelado em prol de um conhecimento da própria sociedade.

Os jornalistas tradicionais não transgrediram as regras dos governos

Quem é dono da informação?

I.B. – A questão do anonimato me parece ser uma questão importante, decisiva. A questão do site que pode ser espelhado, pode ser multiplicado, que tem parceiros e centenas de voluntários no mundo inteiro. Quem produz a informação? Quem divulga? Quem faz a informação circular? Não é uma corporação, não é o New York Times, não é a Rede Globo de Televisão. É uma multidão que está produzindo e difundindo essa informação. Esse seria um outro ponto: a questão da produção colaborativa, descentralizada, global da informação fora de uma corporação jornalística, fora de uma agência de notícias, fora da produção da mídia estatal ou privada. Esse é um momento muito importante. As informações mais cruciais sobre a guerra do Afeganistão, sobre o Iraque, sobre relações de direitos humanos, sobre conspirações contra democracias, golpes de Estado estão sendo veiculados de uma forma colaborativa, descentralizada e anônima. Esse é o pilar de uma nova forma muito radical de nós pensarmos a nossa relação com o campo da informação e comunicação pós-mídias sociais.

Não se pode barrar essa informação, não há como barrar a circulação da informação mesmo que ela seja considerada estratégica pelos governos. Esses pilares iniciais que colocam um pouco de ponta cabeça esse conceito da livre circulação da informação, que já existia, mas não era praticado, e talvez as ferramentas para que ele pudesse ser feito de forma global estão surgindo agora pós-internet. Temos uma ferramenta que consegue sustentar essa prática radical de livre circulação da informação, mesmo que acarrete altos custos para quem está envolvido nela. Neste sentido, basta ver a retaliação que Julian Assange vem sofrendo. Ele pode ser considerado o primeiro preso político dessa nova era da guerra da informação, pois foi perseguido, procurado e preso. Teve seu site boicotado por corporações, teve as formas de captação de recursos através de doação pelo PayPal também interrompidas, assim como por empresas como a MasterCard e Visa, ou seja, é uma reação muito violenta por parte de governos e corporações diante de uma experiência de comunicação também muito radical.

O que o WikiLeaks pode representar para as ciências da comunicação?

I.B. – É um modelo do jornalismo baseado na declaração, em uma determinada fonte, em um especialista, também é colocado em xeque. O wikiLeaks não é um site jornalístico, é um site de rastreamento e divulgação de informações de fontes primárias, uma coisa que o jornalismo tradicional nunca fez, que é disponibilizar a fonte primária. O jornalismo tradicional sempre trabalhou com a ideia da mediação. O que o jornal só divulga o que decide publicar, além de editar o material a ser propagado. Só muito recentemente que passamos a disponibilizar entrevistas de forma integral. Nessas últimas eleições, vimos essas edições serem feitas quando um determinado político dava uma declaração e a frase era utilizada contra ele. Vimos isso na Veja e no jornal O Globo, por exemplo.

Claro que no caso do WikiLeaks esses documentos brutos precisam ser analisados, interpretados. Algumas informações não podem ser analisadas por qualquer um. Elas precisam da mediação, da análise, da interpretação. O que estamos discutindo aqui é muito menos o conteúdo, mas sim o processo. Um processo novo de disponibilização de documentos, de informações, de imagens, estatísticas, que eram restritas, que eram consideradas segredo de Estado, segredo de corporação, segredo jornalístico. A primeira questão que me pareceu muito forte quando o WikiLeaks começou a abrir sua caixa de revelações é exatamente essa estratégia da distribuição das informações. Mas por que os jornalistas não fizeram isso antes? Porque os jornalistas tradicionais, inclusive podendo preservar fontes, não transgrediram as regras dos governos. Foi por isso que o Assange foi considerado inimigo público número um em alguns países e perseguido dessa maneira.

A originalidade é a forma com que a informação é compartilhada

Vazar ou não vazar? Eis a questão.

I.B. – Então, por que o jornalismo tradicional não deu esse passo em frente? Jornalistas já tiveram acesso a documentos secretos de vinculação restrita, mas por que não vazaram? Por que não publicaram? Na verdade, sempre vimos isso acontecer de forma muito parcial. Por exemplo, na campanha da Dilma quando trouxeram a tona os dados dos serviços secretos de informação da época da ditadura, sua ficha policial... Quando interessa à corporação divulgar determinadas informações sigilosas, elas aparecem nos jornais preservando as fontes, muitas vezes com uso muito parcial, muito de interesse explícito e nunca de uma forma mais ampla no interesse público.

Claro que é decisivo termos acesso a esse tipo de informação porque ela mostra a forma de pensar, seja do Império, do governo ou de determinadas corporações. É importante entendermos como funciona exatamente o pensamento destes governos, destas corporações, destes veículos de comunicação, é uma espécie de explicitação do pensamento que rege essas instituições, isso é importantíssimo. A publicação da informação, da contrainformação, cria uma nova camada de transparência em relação ao compartilhamento do conhecimento das informações sobre a sociedade como um todo. Precisamos conhecer a visão de quem está operando nos governos, nos exércitos, nas empresas. A questão da liberdade da circulação da informação é decisiva para que possamos equilibrar os poderes em uma democracia, saber o que meu inimigo pensa sobre mim para atuar.

Podemos dizer que o WikiLeaks levantou a bandeira da liberdade de expressão?

I.B. – Não, essa bandeira existe já há muito tempo. Sem dúvidas ele radicaliza essa batalha em torno da liberdade de expressão, de acesso pleno a documentos sigilosos dos governos, da diplomacia norte-americana sobre o Brasil, sobre os processos no mundo inteiro. A originalidade é a forma com que a informação é compartilhada e feita por uma multidão de agentes no mundo inteiro e não por especialistas. A forma me parece original, mas a luta é uma luta antiga.

Há sonegação de dados importantes

Até a ocupação do Morro do Alemão foi citada em documentos revelados pelo WikiLeaks. O que isso representa?

I.B. – O que eu tive acesso, não sei se foi pelo WikiLeaks ou instituições ligadas à questão dos direitos humanos, era exatamente toda uma pergunta pelos dados, quantas pessoas morreram, quem morreu, policiais, traficantes, pessoas inocentes. Afinal, para onde foram os traficantes todos, se eles foram mortos ao longo das matas que cercam os bairros? Onde estão os corpos? Sem dúvida, todo mundo que acompanhou a operação fez esse tipo de pergunta e a imprensa foi muito econômica em relação às forças todas que estavam envolvidas na ocupação. Por mais legítimas que sejam as forças, a imprensa ocultou algumas questões, como, por exemplo, a violação das casas. Também soubemos, de forma espaçada, que aconteceram roubos por parte dos policiais. E onde estão esses dados? Quais são os dados confiáveis?

Em uma operação como essa, não basta termos acesso às imagens midiáticas selecionadas ou imagens que interessam tanto ao governo, quanto as mídias e às forças que estão de forma muito bem intencionada empenhadas no processo de ocupação do território. A operação tinha propostas e questões muito importantes. Inclusive esse deslocamento do massacre de bandidos ou de inocentes em nome do combate ao tráfico de drogas, houve uma mudança desta mentalidade. Claramente, vimos uma mudança de pensamento em relação à forma de se tratar a questão das favelas no Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo, arbitrariedades de relações foram cometidas, mas onde estão esses dados? Eles não vêm a público em nome de um discurso de sucesso de vitória da operação? Há sonegação de dados importantes e seria importante termos acesso para inclusive combater, sofisticar, sair do discurso do massacre, da repressão, para criar de novo estratégias em questão da segurança pública. É preciso deixar de lado as velhas práticas, da violação do estado de exceção que vigora ainda nas favelas do Brasil inteiro, e no Rio de Janeiro em especial.

Imagina se a Voz da Comunidade pudesse ser multiplicada

Aliás, o movimento feito através da internet por moradores das favelas ocupadas chamou bastante atenção. Como a senhora vê esse tipo de apropriação da web?

I.B. – Teve um momento muito bacana. Existe uma possibilidade muito grande do uso da informação que é dada pelo próprio morador da favela, da comunidade ou do território de guerra. Aquilo é decisivo porque passa pelo bloqueio da censura, passa o bloqueio do sigilo, da ideia da informação privilegiada ou que não pode vazar para a sociedade. Vimos isso em vários momentos das guerras contemporâneas, nas guerras em torno dessa questão da apropriação tecnológica e da rede.

No caso do Rio de Janeiro, ainda foi muito incipiente a experiência da Voz da Comunidade. Eram meninos de 10 a 17 anos, em casa, mandando algumas informações via Twitter sobre o que estava acontecendo durante a ocupação do morro pela polícia. Era muito mais uma experiência quase que subjetiva do que estava acontecendo. Eles diziam que estavam com medo, que acabava a luz, que escutavam tiros. Eles me comoveram muito mais pela transmissão de uma experiência que muitas vezes nós não conseguimos lidar. Comoveu-me por se tratar de meninos, de crianças, enfim, lidando com essa potencialidade de compartilhar esse tipo de experiência. Eles estavam ali reféns de uma ocupação legítima, mas sofrendo todo um impacto subjetivo, violento, radical em uma zona de guerra. No caso do Complexo do Alemão, para mim foi muito mais isso. Porque, na verdade, o que os meninos estavam transmitindo, muitas vezes, eram informações que eles estavam vendo da TV ou da janela de casa, o que é muito restrito. E depois, quando começaram a andar, a sair de casa, davam pequenas informações. Foi, portanto, muito mais um gesto simbólico da potencialidade que se tem efetivamente com as redes sociais. Imagina se não fossem cinco, mas se cada casa e barraco na favela tivesse hoje acesso a uma banda de internet, wireless, ou tendo uma lan house segura e pudessem estar, de forma multiplicada, compartilhando essas experiências muito radicais, subjetivas, singulares que não passaram na mídia.

Essas experiências apontam o entendimento novo de sociedade

O novo governo comentou sobre a intenção de distribuir iPads para os estudantes. Como você vê esse tipo de projeto no Brasil?

I.B. – Acho extraordinário. O ministro das Comunicações, que é o Paulo Bernardo, representa uma virada grande no Ministério das Comunicações. Sai Hélio Costa, que barrou muitas discussões, como a mudança da lei geral das comunicações, e entra Bernardo, que está no Twitter. É um prazer você acordar e poder fazer uma pergunta ao Ministro das Comunicações, que está no Twitter e que responde e dialoga e que está em uma relação proximidade com quem apostou nesse governo. Até mesmo com quem não apostou, mas quer contrapor, criticar, cobrar. Então, é uma mudança enorme da relação da própria ideia de governança, da cogestão do ministério.

O Bernardo anunciou a questão dos laptops nas escolas para os estudantes e isso me parece ser decisivo, pois são esses meninos que vão fazer a revolução da informação no Brasil e já estão fazendo. Foram garotos de 10 a 17 anos que compartilharam a experiência da ocupação do Alemão com o mundo todo, foram entrevistados pela CNN, aparecem no Fantástico, foram incorporados pela grande mídia como fonte de informação. É, portanto, um momento importante de passagem, da universalização das ferramentas. Um laptop dentro da escola que o garoto possa levar para casa faz toda diferença. Já não existe mais fronteira entre quem forma, pois a sociedade toda forma.

A experiência uruguaia

I.B. – Eu vi em Montevidéu aquele computador de cem dólares. Coisa mais linda, as crianças na calçada com computador de plástico, verde, bonito, todo amigável, usando fora da escola. Na verdade, isso é instrumentalizar para o mundo WikiLeaks, para essa radicalização de quem produz a informação, de quem tem uma experiência de compartilhar essa informação com o mundo todo. Eu acho decisivo, desde que não seja de uso exclusivo escolar, tem que ser para vida, tem que distribuir computador com internet de graça para cada brasileiro. Neste momento, é decisivo para quem está na escola. Acho maravilhoso isso, uma política pública importante.

Outra questão que o Bernardo anunciou é formar, dentro do Ministério, uma Secretaria da Inclusão Digital, que acredito que possa evoluir para uma secretaria das políticas públicas no campo da cultura digital. Não é só uma questão da inclusão digital, de mediar, não é só dar o computador: é a cultura WikiLeaks, é a cultura digital, a cultura do compartilhamento, da transparência, da governança, da cogestão. É muito bacana, nesse sentido, o Brasil estar antenado, pois é muito ávido pela comunicação, pelo compartilhamento. Essa atitude está muito próxima do comportamento brasileiro em compartilhar cotidianamente suas experiências. Está aí o sucesso das redes sociais no Brasil. São experiências que apontam para essa possibilidade do uso dessas ferramentas para a constituição de políticas públicas novas, do entendimento novo de sociedade.

Temos que não só esperar por mudanças, mas radicalizar essas mudanças

Cultura digital na favela

I.B. – Essas palavras que parecem abstratas, muito longínquas, para um futuro muito distante. Começam aí, quando se entrega um computador com internet para o menino da favela. Neste ponto, começa uma mudança efetivamente radical. A Dilma falou muito da questão do plano de banda larga, o ministro Bernardo já chamou as operadoras de telefonia, os parceiros públicos e privados para colocar essa disputa, que não é uma disputa de política pública, mas mercado econômico, que vale muito e que é importante que esteja abaixo de uma política pública e não de um interesse comercial.

Eu fico feliz que, neste primeiro momento, estamos tendo sinais de que o governo brasileiro entendeu que essas políticas de inclusão digital são decisivas para pensar no Brasil 2.0 e que isso é importantíssimo para a democracia brasileira. Não é uma questão de consumo simplesmente, de inserção da classe C ou de novos grupos sociais no consumo de internet: isso é decisivo para a construção de uma nova democracia participativa. Claro que depende de muita mobilização, de ativismo, depende da construção de conceito de discurso, porque isso não é óbvio, basta a gente ver a demonização que está sendo feita pela grande mídia em relação ao WikiLeaks.

Voltando ao WikiLeaks. E como fica a política depois do WikiLeaks?

I.B. – O WikiLeaks é o prenúncio de uma necessidade de uma governança global, é um prenúncio do que chamamos de democracia participativa global, de uma articulação, de uma sociedade civil transnacional, de facilitar o compartilhamento de conhecimentos, bens culturais, opiniões dessa forma transnacional. Até que ponto as instituições e os poderes podem estar acima da ideia de liberdade de comunicação, informação e expressão? A própria ideia das alianças, com quem os governos se relacionam em termos de poderes, o mapa dos poderes. Quando o mapa dos poderes fica explicitado através dessas informações sigilosas, começamos a traçar novos mapas. A relação dos Estados Unidos com alguns países da Europa, da América, da Ásia, da Oceania, da África que são os seus satélites informacionais, você vê que tem uma rede de informações, de relações de poder, ou seja, de geopolíticas que ficam claras na forma como essas informações aparecem.

Isso tudo, de certa maneira, reforça os movimentos que já apontam em relação a esse tipo de comunicação. Na política muda tudo, mas tudo depende de mudanças locais, de mudanças em cada um desses países, da construção de uma articulação de sociedade civil transnacional. Então, depende de uma série de outros movimentos. Não podemos esperar mudanças rápidas. Claro que o WikiLeaks foi um choque global dentro da relação de se lidar com a informação. Isso produz mudanças, mas essas mudanças ainda estão sendo digeridas, entendidas, analisadas em cada país, pelos governos e pela própria sociedade civil. Talvez de novos entendimentos do que é essa sociedade civil transnacional que está se articulando através de formas novas como o próprio WikiLeaks e outros bancos de dados globais sejam construídas. Mas, sem dúvida, que essa relação de liberdade, transparência, democracia, o equilíbrio entre esses conceitos, esses campos, se alteram.

O WikiLeaks produziu um grande desequilíbrio, uma crise no que se considerava dado em termos da gestão da própria informação. Nós temos que não só esperar por mudanças, mas radicalizar essas mudanças e entender o que nesse acontecimento todo desses documentos vazados nos interessam, interessam para o nosso ativismo, interessam para trabalharmos com essas ideias que são mais amplas e que vão sendo construídas em longo prazo.

Por IHU Online

Observatório da Imprensa

O jornalismo padrão globo de Bonner e o “amassa-barro” de Ana Paula Padrão

Pela janela do quarto,

Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
Quem é ela? Quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle…

(Esquadros, Adriana Calcanhoto)

Do dia 17 a 19 de janeiro, o Jornal da Record exibiu uma reportagem especial intitulada “Vizinhos do Crime”. Nela, a jornalista Ana Paula Padrão e sua equipe demonstram as condições de vida dos jovens moradores da Vila Gilda, conjunto de moradias precárias – palafitas, na maioria – em uma região de manguezal em Santos. A reportagem foi exibida em três partes e mostrou desde o mundo do crime se apresentando como alternativa para os jovens – e o preço a ser pago por isto que é a perspectiva curta de vida (e os que se enveredam por isto demonstram, na reportagem, terem plena consciência disto) – e as tentativas quixotescas de alguns membros da comunidade de apresentar outras alternativas como o MC Careca, na arte, e o futebol (clique aqui para ver).

Curioso que o futebol está na alma dos jovens daquele bairro porém em perspectivas diferentes: um menino de 13 anos joga no infantil do Santos F.C e contou sua ida à Espanha para representar o alvinegro praiano em uma competição internacional e a camisa deste mesmo Santos FC aparece no rosto dos meninos do tráfico para esconder sua identidade.

O que chama a atenção nesta reportagem é a ousadia de Ana Paula Padrão de sair da assepsia do estúdio do telejornal que apresenta e ir para a rua, “amassar barro” literalmente. Lembrei-me de uma ocasião em que alunos de jornalismo da Universidade Metodista de Piracicaba, onde lecionei durante 17 anos, foram visitar os estúdios do SBT onde a jornalista Ana Paula Padrão apresentava um telejornal. Certo momento, um aluno perguntou sobre a questão da “importância da boa aparência para apresentar jornal de televisão”. Ana Paula Padrão ficou furiosa, respondeu “boa aparência o c…; eu fui repórter durante muito tempo, perdi feriados, Natal, passei por inúmeras situações para ser reconhecida profissionalmente” foi mais ou menos as palavras dela, indignada.

Lembro-me agora do William Bonner, do Jornal Nacional da Globo. A sua saída dos assépticos estúdios da Globo acontece dentro de um outro ambiente confortável, seguro e asséptico: o tal avião do JN, o aerobonner. É possível fazer uma analogia aos ecoturistas chiques estrangeiros que visitam a Amazônia dentro de seguros carros e cercado de seguranças das agências, podendo ver das janelas a paisagem “exótica” de plantas, animais e seres humanos estranhos. Uma das tentativas da Globo de ir para o mundo real deu em tragédia, a morte de Tim Lopes que, tragicamente, percebeu que o poder da rede do plim-plim não significa nada nas relações do tráfico nos morros do Rio de Janeiro (por isto a indignação da Globo com a morte do seu repórter que equivale ao sentimento de revolta de policiais quando um colega seu é morto – o poder não admite que suas fragilidades sejam expostas publicamente).

O JN sintetiza este tipo de “jornalismo” que olha através do seu bunker, onde a arrogância e prepotência de quem se julga o único construtor legítimo das agendas públicas pode ser exercida plenamente. O subalterno vira coitado, vítima e só aparece na tela como estatística ou, no limite da sua subjetividade, para dar tons emotivos com seus choros nas tragédias.

Independente de qualquer coisa, Ana Paula Padrão deu uma lição de jornalismo. Principalmente porque este tipo de matéria incomoda.

Por Dennis Oliveira, Revista Fórum

sábado, 22 de janeiro de 2011

O império está nu

Em 2010, dois importantes acontecimentos jornalísticos – Top Secret USA e Wikileaks – mexeram com os ânimos do governo dos Estados Unidos, obrigando-o a intervir severamente, visando a ocultar ao grande público alguns dos dados descobertos, que, se publicados, tornariam a situação ainda mais grave.

Os fatos sem precedentes na história acabaram por expor a falácia da tão aclamada “liberdade de imprensa”, fundamento principal do discurso desse país contra seus opositores no mundo – como China, Rússia e Irã, entre outros.

O primeiro dos casos foi a publicação, em 19 de julho, pelo jornal The Washington Post, de ampla matéria de investigação intitulada “Estados Unidos Supersecretos” (Top Secret USA), trabalho de dois anos realizado por uma equipe de vinte jornalistas coordenados por Dana Priest (duas vezes ganhadora do prêmio Pulitzer) e William M. Arkin (especialista em temas de segurança).

A reportagem é uma descrição minuciosa do complexo sistema de inteligência, vigilância e segurança que foi desenvolvido nos EUA após os contra-ataques de 11 de setembro de 2001, mostrando o inchaço de um conglomerado que contém 1.271 agências estatais e, ainda, 1.931 empresas privadas terceirizadas pelo governo, dispostas em cerca de 10 mil localidades espalhadas pelo país e que abarcam 850 mil cidadãos. Ou seja, numa população de 300 milhões, aproximadamente uma pessoa em cada 350 é espiã – com autorização especial para acessar informações confidenciais e realizar ações secretas.

Contudo, a atitude do jornal diante do caso foi bastante morna, centrando-se mais no custo e ineficácia do serviço do que na perigosa coerção burocrática e antidemocrática que vem sendo levada a cabo por tal esquema de espionagem – o que, na prática, constitui um “governo alternativo”, como concluíram diversos analistas.

Ademais, o The Washington Post afirma que, em função da natureza delicada do assunto, funcionários de alto escalão do governo foram autorizados a acessar a investigação, antes de sua publicação, e que, portanto, algumas informações foram retiradas – lembre-se o leitor de que falamos aqui não do cerceamento da liberdade de imprensa no Irã, mas nos Estados Unidos.

Deve-se ser levado em conta também que há certamente uma boa parte de aparato ultrassecreto à qual os repórteres não conseguiriam ter acesso. Assim, dentre os assuntos acessados e não censurados pelo governo, veio à tona a desorganização e sobreposição desse excessivo aparato, em que funcionários e organizações frequentemente desempenham trabalhos iguais, sem que haja um controle central que designe com clareza qual a dimensão de cada uma dessas atividades – em sua maior parte, subcontratada e privatizada em escalas industriais.

Dias depois desse “furo”, foi a vez do primeiro ato do portal Wikileaks, que, agora, se aprofunda num belo segundo ato, que levou a grande autoproclamada “democracia” a promover dura perseguição ao seu líder, o australiano Julian Assange. A repressão à “imprensa livre” foi ainda mais dolorosa pelo ridículo disfarce escolhido – Assange foi preso sob a acusação de estupro e assédio sexual, que teriam ocorrido na Suécia.

Ele negou as acusações, admitindo apenas ter insistido em uma relação sexual sem preservativos – o que é caracterizado no país escandinavo como “estupro leve”. Segundo declarou Assange, essas denúncias não passam de uma “estratégia para desmerecer as revelações” feitas por seu site.

A divulgação de centenas de milhares de documentos procedentes do Exército dos EUA foi logo abraçada por parte da grande imprensa internacional – como The New York Times, The Guardian (Inglaterra) e Der Spiegel (Alemanha). Dentre os dados sigilosos expostos, constam desde casos de espionagem e intervenção em assuntos nacionais externos, praticados por diplomatas, até informes detalhados de diversas atividades militares, em especial, no Afeganistão (desde a invasão do país, em 2001, até dezembro 2009).

Embora o ponto de vista dos relatos de guerra seja aquele de quem participou das ações – o que tende, logicamente, a suavizar a exposição, ou a ocultar as mais comprometedoras –, os textos selecionados pelo portal foram, ainda assim, um baque em Washington, por denunciar crimes de guerra cometidos pela Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e por esquadras secretas de assassinos contratados.

É verdade que a maioria desses fatos relatados já havia sido denunciada de modo esporádico, mas, agora, eles estão documentados publicamente – o que poderá ser usado em juízo – e, ademais, foram colocados de tal modo que trouxeram uma visão de conjunto daquilo que a grande imprensa costuma jogar ao público de maneira recortada e descontextualizada, dificultando a compreensão.

Enquanto a reportagem do The Washington Post expõe que o povo estadunidense vive sob um controle social kafkiano pior do que o da Guerra Fria (e submetido ao interesse privado), os vazamentos de documentos selecionados pelo Wikileaks demonstram clara ingerência imperial, além de jogar luz sobre os horrores e interesses comerciais de uma guerra neocolonial não assumida como tal.

EUA supersecretos – por baixo do pano internamente

A radiografia jornalística do The Washington Post aponta para um aparato de espionagem e segurança tão inchado – especialmente, após 2001 – que não permite que se saiba exatamente sua dimensão ou eficiência. Segundo a reportagem: “o mundo supersecreto que o governo [dos EUA] criou é tão imenso e de difícil controle que ninguém sabe quanto custa, ou quantos serviços distintos executam as mesmas tarefas, sendo impossível saber sua eficácia”.

Através de documentos oficiais e contratos, registros de propriedade, redes sociais e diversas entrevistas feitas nos últimos anos, o jornal afirma que esse “governo alternativo” vem desperdiçando o orçamento público. Somente na região de Washington, desde 2001 foram construídos 33 edifícios exclusivos às tarefas de espionagem – em instalações que ocupam o espaço de três “Pentágonos”, ou 17 quilômetros quadrados.

Já a Agência de Inteligência de Defesa teve, depois de 2001, seu efetivo aumentado de 7.500 empregados para 16.500. No mesmo período, a Agência de Segurança Nacional (encarregada da espionagem eletrônica) teve seu orçamento duplicado. Conforme constatou o fotógrafo Michael Williamson, certos edifícios usados por organizações que fazem parte da inteligência “são prédios que só têm quatro andares para cima, mas têm mais dez andares de subsolo, com um mundo inteiro ali dentro”.

À semelhança de um popular seriado televisivo do país (“Fringe”), a companhia General Dynamics, por exemplo, opera com programas secretos em 99 diferentes locais, tendo contratos com 16 agências de inteligência governamentais, incluindo desde atividades psicológicas a nucleares e de análise de dados secretos.

Apesar de essa intensificação nas atividades detetivescas, o jornal afirma que os resultados não correspondem ao crescimento numérico, devido a sua desorganização. Como exemplo da burocracia inoperante, o texto afirma que 51 agências e programas, tanto civis como militares, têm como mesma função seguir pistas financeiras de redes classificadas como “terroristas”.

Além disso, a reportagem dá ênfase ao fato de que são produzidos anualmente 50 mil relatórios, um volume tão grande que não permite que sejam analisados: “muitos desses informes são simplesmente ignorados”. O próprio secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates, admite que a burocracia “cresceu tanto desde o 11 de Setembro que é muito difícil abarcar toda essa informação”. Já um funcionário do Departamento de Defesa reconheceu, não sem certa ironia, não ter suficiente “longevidade” para “dar conta de tanta informação”.

Assim, há quem questione, com pertinência, se todo esse aparato não teria se tornado uma poderosa indústria visando apenas a lucros. O jornal aponta que em circunstância dessas tantas falhas administrativas, os serviços de inteligência não conseguiram impedir a tentativa de atentado contra um voo Amsterdã-Detroit no Natal de 2009 – frustrado apenas pelos equívocos dos próprios executores –, bem como o massacre de novembro de 2010 em Fort Hood, no Texas, que teve um saldo de treze mortos.

Fontes do governo Obama qualificaram os dados como “problemáticos”, mas sempre batendo na tecla de que tais informações não deveriam ter sido publicadas, pois fragilizam a defesa dos EUA diante de seus “adversários”. Em resposta, o jornalista William Arkin afirmou: “Levamos meses em negociações e discussões com o governo, e não acredito que foi publicado nada que possa ferir a segurança nacional”.

Marcus Brauchli, editor-executivo do jornal, respondeu também às críticas, expondo involuntariamente o controle da imprensa no país: “Fomos muito cautelosos com o que publicamos”, explicando, ainda, que parte da pesquisa foi enviada a funcionários do governo – alguns dos quais inclusive visitaram a redação do jornal para avaliar pessoalmente o andamento dos trabalhos – e, a pedido deles, “alguns dados foram omitidos”. Realmente, seria ingenuidade não se supor que, assim sendo, o mais comprometedor em matéria de direitos humanos deve ter sido censurado.

Tal pressão governamental contra a liberdade de imprensa foi lembrada pela imprensa internacional como semelhante ao caso Watergate – embora sem a mesma dramaticidade, pois, agora, não há diretamente nenhum indício de atividade ilícita do próprio presidente –, quando o mesmo The Washington Post divulgou série de reportagens comprometedoras que culminaram com a queda de Richard Nixon da presidência, em 1974.

O diretor nacional de Inteligência interino David Gompert veio a público para dizer que a reportagem “não reflete a verdade”, e que os obstáculos, “ainda que difíceis”, estão sendo superados. Gompert ocupa o cargo provisoriamente, desde a saída de Dennis Blair, devido às críticas deste à CIA no caso citado da tentativa de explosão do avião no Texas. Já o porta-voz da Casa Branca, mais humildemente, revelou “certa preocupação” com a matéria, na questão econômica, ainda que nada tenha dito acerca do autoritário cerceamento popular, denotado implicitamente pelo texto: “É preciso equilibrar as necessidades de defesa diante de nossos inimigos com os gastos públicos”.

Dentre os quase 850 mil espiões contabilizados, aproximadamente 265 mil (ou um terço) são terceirizados. A contratação de empresas privadas foi, de início, uma solução temporária diante do ataque de 2001, mas acabou por se converter em uma dependência – o que faz com que analistas tenham posto em dúvida, inclusive, se o governo continua tendo sob controle suas atividade mais importantes.

Tanto o secretário de Defesa, Robert Gates, como o diretor da CIA, Leon Panetta, mostraram-se preocupados com essa situação. Dentre as atividades dos agentes terceirizados, estão: o assassinato de combatentes inimigos em emboscadas, a espionagem de governos estrangeiros e redes tidas como terroristas, o recrutamento de espiões para atuar no Iraque, o pagamento de subornos para obter informações no Afeganistão e a proteção de diretores da CIA em viagens. Além disso, esses contratistas foram, por exemplo, os responsáveis pela detenção de “suspeitos” em plena Itália, que, depois de interrogados, foram mantidos em cárceres secretos no exterior.

A terceirização foi a solução de George W. Bush para acelerar as amplas contratações de funcionários para sua luta contra o que chamava de “terrorismo”. As cifras envolvidas são tão altas que os contratistas chegam a receber como “benefícios laborais” carros de luxo BMW e 15 mil dólares de bônus por contrato. Obama, em dois anos de governo, conseguiu diminuir o montante de terceirizados em apenas 7%.

Documentos vazados – por baixo do pano externamente

Quanto aos inúmeros documentos vazados pelo Wikileaks – especialmente sobre a guerra do Afeganistão e ingerências exteriores por parte da diplomacia estadunidense –, Julian Assange afirmou que se trata de um escândalo que pode ser comparado à saga dos Papéis do Pentágono, quando 10 mil documentos confidenciais expuseram ao mundo, nos anos 1970, algumas das atrocidades cometidas pelos estadunidenses na Guerra do Vietnã.

A massiva seleção e publicação de arquivos (reunidos de 2004 a 2009, a maior parte sob o governo Bush) foi, num primeiro momento, condenada pela Casa Branca. Agora, alguns meses depois, com a segunda grande leva de documentação exposta, veio a perseguição aberta.

Em um comunicado, o conselheiro de Segurança Nacional do governo, James Jones, disse que “a divulgação põe em risco a vida dos cidadãos dos EUA e de nossos parceiros”. O início das publicações de documentos ocorreu no começo do segundo semestre de 2010, e deu-se em seguida à detenção do analista de sistemas Bradley Manning, acusado de ter vazado os dados expostos.

Manning foi preso a partir da denúncia de um pirata informático, Adrian Lemo, que o dedurou após ter percebido o envio de 260 mil documentos ao Wikileaks. O conselheiro Jones defendeu Obama, lembrando que ele emitiu, em dezembro de 2009, sua nova estratégia para o Afeganistão, que destina mais recursos à guerra, com vistas a fazer frente aos acampamentos talibãs dentro do Paquistão. “O motivo disso foi justamente a grave situação que se desenvolveu nos anos anteriores”, cutucou.

No ano passado, após a divulgação de acusações de que novos métodos de tortura de prisioneiros tinham sido desenvolvidos e utilizados pela CIA, Obama visitou sua sede em Langley, na Virgínia, onde foi recebido por Panetta. Os relatórios apontam que os métodos aprovados pela administração Bush incluíam manter os presos até onze dias de pé, ou encarcerá-los por dias na completa escuridão.

Insetos também eram usados para atemorizar os prisioneiros. Estes eram, ainda, colocados completamente nus nas celas e submetidos a banhos de água gelada. A publicação provocou polêmicas nos EUA. Diversas organizações civis exigiram que aqueles que aprovaram tais torturas e seus executores fossem processados, mas a decisão de Obama foi a de não levar o caso à Justiça, provocando certa revolta popular.

Execução sumária de supostos membros talibãs sem direito a julgamento, grandes cifras ocultadas de mortes de inocentes civis, operações de espionagem de governos, assassinatos seletivos operados pelo destacamento “373” (inclusive, com uma listagem de figuras de destaque que deveriam ser eliminadas), e, até mesmo, declarações de “atenção” sobre o Brasil – “a única potência da América Latina” – foram algumas das “pérolas”. Os documentos atestam, também, que a série de erros tidos como “colaterais”, bem como o crescente poderio dos Talibãs, têm afetado a confiança da população afegã nas tropas aliadas da Otan.

Dentre os textos, há um publicado pelo The New York Times que acusa o serviço secreto paquistanês (ISI) de apoiar secretamente o Talibã na fronteira afegã, no sul do país, e até mesmo em Cabul – enquanto o governo paquistanês recebia, por seu “apoio” contra os insurgentes, os bilhões de dólares anuais vindos de Washington. O jornal admite que muitas das informações não podem ser comprovadas, mas diz que “numerosos informes se baseiam em fontes que os militares consideram de confiança”.

Um dos textos diz que o “governo do Paquistão permite que representantes de seu serviço secreto reúnam-se com os talibãs em sessões secretas de estratégia, para que sejam organizados grupos de militantes com a função de combater soldados da Otan-EUA e, inclusive, assassinar líderes do governo afegão”.

O britânico The Guardian afirma que esses informes revelam como “uma unidade secreta de forças especiais faz emboscadas contra líderes talibãs para assassiná-los sem julgamento”. Relata também que os registros vazados indicam 144 incidentes com civis afegãos mortos: “Algumas dessas baixas se devem aos ataques aéreos que suscitaram protestos do governo afegão, mas um grande número, até então desconhecidos, parecem ter se dado em função de soldados que abriram fogo contra motoristas ou motociclistas desarmados que se aproximaram, por medo de serem terroristas suicidas”. E completa: “É provável que esses números [de 195 civis mortos citados nos documentos] estejam subestimados, pois muitos incidentes são omitidos dos informes de campo”.

Entre as surpresas trazidas pelo vazamento, estão informações de que os talibãs estão usando mísseis portáteis infravermelhos contra as aeronaves da Otan – armas terra-ar com tecnologia semelhante aos mísseis Stinger (fornecidos aos talibãs pela CIA durante os anos 1980, como forma de apoio à insurgência contra os soviéticos).

O Grande Irmão

Ambos os casos nos levam a refletir sobre os limites da imprensa e a honestidade dos discursos proferidos pela ideologia que os EUA tentam passar como “hegemônica” ao mundo globalizado. Percebe-se, como já levantado, que o The Washington Post reduziu severamente o debate sobre o controle social do cidadão dos EUA a um mero caso de “eficiência” ou de “economia e resultado”.

A timidez da abordagem terminou por gerar uma fraca reação da opinião pública a um tamanho escândalo que diz respeito às liberdades humanas mais caras. Assim, o restante da imprensa acabou esnobando a importância dessa reportagem (e das denúncias do estilo “Grande Irmão” operado pela CIA à revelia da própria presidência). Alguma atenção a mais vem sendo dada ao Wikileaks. Porém, o que se percebe, numa análise mais geral, é que ambos os casos são faces de um mesmo problema de agressão aos direitos humanos – um interno e outro externo.

Quanto ao governo Obama, apesar de algum discurso, ele quase nada realizou de contundente para mudar tal situação – manteve a neurótica orientação “antiterrorista” de Bush. Em junho de 2009, Panetta chegou a anular o Programa Phoenix – mantido em segredo até mesmo perante o Congresso dos EUA –, idealizado pelo vice-presidente de Bush, Dick Cheney e dirigido a assassinar dirigentes da Al-Qaeda.

Estuda-se, também, o fechamento de uma unidade de contrainteligência criada pelo ex-secretário de Defesa de Bush, Donald Rumsfeld, para investigar cidadãos que protestaram contra as guerras dos EUA no Iraque e Afeganistão – o que faz lembrar a espionagem militar de civis que se manifestaram contra a Guerra do Vietnã.

No entanto, em junho de 2010, a Corte Suprema dos EUA confirmou, por seis votos a três, o disposto pelo Ato Patriótico, segundo o qual qualquer pessoa que ofereça assistência legal ou algum tipo de apoio a organizações classificadas pelos EUA como “terroristas” poderá ser processada como “apoiador material” da dita organização.

Como exemplo, há o caso da ONG californiana Projetos de Lei Humanitários, que assessorava o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (que luta contra a opressão dos curdos pela Turquia) em questões de ajuda humanitária e direitos humanos. Segundo a lei, agora ratificada por Obama, essa organização poderá ser processada por “apoiar terroristas”. A procuradora-geral, Helena Kagan, indicada por Obama a magistrada vitalícia da Corte Suprema, resumiu a lei da seguinte forma: “O Hizbollah fabrica armas e também constrói casas – se você o ajuda a construir casas, também o está ajudando a fazer armas”.

No ano passado, ela afirmou que quem fosse suspeito de financiar a Al-Qaeda deveria se submeter às leis de guerra, ou seja, ao que, para o governo dos EUA, implica na possibilidade de detenção indefinida e sem julgamento, e, inclusive, em execuções extrajudiciais – mesmo que a pessoa se encontre fora de local de combate, o que quer dizer, em qualquer lugar do mundo.

Claro que o inimigo a ser perseguido mundo afora continua a ser quem o governo dos EUA (ou a CIA) disser que é. Contudo, agora, o Império terá de enfrentar um inimigo mais difícil de ser exterminado – os neoanarquistas digitais. Camaradas de Assange, eles ameaçaram expor, na ocasião de sua detenção, “toda a documentação” de que dispõe, caso algo de suspeito ou “ilegal” aconteça contra seu líder preso. Além disso, uma rede de ciberativistas tem espalhado as informações do Wikileaks em outras centenas de páginas, de forma que os ataques dos hackers contratados pelos EUA contra o portal de Assange não afete a divulgação dos textos.

E, numa demonstração de força, apoiadores do Wikileaks já partiram para a ofensiva, atacando empresas como MasterCard, Visa, PayPal e Amazon, por terem cedido à pressão do governo dos EUA para prejudicar a estrutura econômica do portal e de seus líderes.

Por Yuri Martins Fontes, em Brasil de Fato

Ofertas aumentam 25,7%

O mercado de trabalho fechou 2010 com crescimento de 25,66%, na comparação com 2009. Segundo um estudo realizado pela Ricardo Xavier Recursos Humanos, no ano passado, foram contabilizadas 27.073 vagas, contra 21.543 em 2009.

Somente em dezembro, foram criados 1.457 postos de trabalho, o que representa alta de 9,79%, na comparação com o último mês do ano anterior. Já no confronto com novembro, houve queda de 32,67%.

“A diminuição na abertura de vagas para executivos em dezembro [em relação a novembro] é algo natural. O aumento do número total de vagas para executivos em dezembro em relação a 2009 foi muito positivo e já sinaliza que 2011 deve ser ainda mais aquecido, com a abertura de oportunidades nos mais variados setores”, explica o presidente da Ricardo Xavier, Hélio Terra.

Áreas que mais contrataram
Em relação às áreas que mais contrataram em dezembro, o destaque foi a comercial, responsável por 10,3% do total de posições. Em seguida, aparecem engenharia, com 9,8%, e recursos humanos (7,1%). Os outros segmentos que também se destacaram foram industrial (6,9%), de tecnologia da informação (5,1%) e administrativo (4,8%).

Os dados indicam ainda que, em dezembro, assim como aconteceu nos meses anteriores, os engenheiros permaneceram na liderança dos profissionais mais procurados no mercado de trabalho, com 22,8% do total das vagas, conforme o ranking abaixo:

Profissões Graduação Vagas
Engenharia 22,8%
Administração 10,72%
Ciências Contábeis 5,77%
Economia 3,1%
Propaganda/Publicidade e Marketing 2,83%
Tecnologia da Informação 2,18%
Direito 1,31%
Psicologia 1,14%
Química 0,98%
Comércio Exterior 0,65%


Por Correio do Estado

EUA: Caldo de cultura facista


Caldo de cultura é quando fico atado a um videogame treinando matar figuras virtuais. Segundo a Newsweek, o videogame mais vendido nos EUA em 2010 foi o Grand Thief Auto 3 (O grande roubo de carros 3). O jogador progride quanto mais crimes comete. Se o jogador rouba um carro e mata um pedestre, a polícia passa a persegui-lo. Se atira no policial, o FBI aparece. Se assassina o agente federal, os militares entram no caso...

Caldo de cultura é quando meu irmão luta no Afeganistão, assim como meu pai fez no Iraque e meu avô no Vietnã.

Caldo de cultura é, aos 23 anos, entrar numa loja e comprar, sem a menor burocracia, uma pistola Glock 9mm e um pente extra que me permite disparar 33 tiros seguidos sem precisar descarregar – como fez Jared Lee Loughner, em Tucson (Arizona), no sábado, 8/1, matando 6 pessoas, entre as quais o juiz federal John M. Roll, e ferindo gravemente várias, inclusive a deputada democrata Gabrielle Giffords.

Os EUA estão num impasse. A eleição de um presidente negro com discurso progressista não foi digerida por amplos setores racistas e conservadores. O que deu origem ao mais recente caldo de cultura fascista –o Tea Party, liderado por Sarah Palin, ex-governadora do Alasca e candidata a vice-presidenta pelo Partido Republicano em 2008.

(Na foto, a virtual candidata conservadora para a sucessão de Obama em pose nada convencional)

O movimento Tea Party situa-se à direita do Partido Republicano. Para seus adeptos, as liberdades individuais estão acima dos direitos coletivos. Embora muitos sejam contra a guerra, eles coincidem com os ultramontanos ao reprovar a união de homossexuais e a legalização de imigrantes, e defender a abstinência sexual como o melhor preservativo ao risco de aids.

Obama é uma decepção para muitos de seus eleitores. Nas eleições legislativas de novembro foi alta a abstenção entre jovens, negros e latinos que nele votaram. Não parece saber lidar com a crise econômica que afeta o país desde 2008. Muitos perderam suas casas devido ao estouro da bolha especulativa; 8,5 milhões de trabalhadores ficaram sem emprego e 8 milhões carecem de seguro-desemprego. O próprio governo admite que em 2012 a taxa de desemprego ultrapassará 8%.

Malgrado o Nobel da Paz, Obama não pôs fim às guerras no Iraque e no Afeganistão; não reduziu a ameaça terrorista; não avançou no quesito ambiental; não melhorou as relações com Cuba; não reformou o projeto de lei de imigração; e não tem segurança de que sua reforma da saúde será aceita pelo atual Congresso.

Hoje, os EUA estão mais à direita do que na eleição de Obama. No pleito de novembro, o Partido Republicano avançou 63 cadeiras. Agora, são 242 deputados republicanos e 193 democratas.

Obama sente-se encurralado. Não ousa como Roosevelt nem inova como Kennedy. Já agradou os republicanos ao contrariar sua promessa de campanha e anunciar, a 6 de dezembro, a prorrogação dos privilégios tributários aos mais ricos, herança da era Bush. Deu um Papai-Noel de US$ 4 trilhões à elite usamericana. E reduziu de 6,2% para 4,2% o imposto recolhido da folha de pagamento e destinado a financiar a Seguridade Social, agora com menos US$ 120 bilhões!

E o Senado, onde os democratas mantêm maioria, desaprovou, a 18 de dezembro, a legalização de 11 milhões de indocumentados que vivem nos EUA.
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A democracia fica ainda mais ameaçada desde que a Suprema Corte, há um ano, deu sinal verde para as grandes corporações financeiras abastecerem o caixa dois das campanhas eleitorais. Estima-se que nas eleições de novembro os republicanos angariaram US$ 190 milhões, e os democratas a metade. E a turma da privatização da saúde contribuiu com US$ 86,2 milhões para tentar boicotar a reforma proposta por Obama ao setor. Em suma, o modelo usamericano de democracia é refém do dinheiro.

O novo Congresso vai bater forte na tecla de corte de gastos do governo. Isso significa, num país em crise, reduzir os serviços sociais e multiplicar a exclusão social e a criminalidade. Inclusive a dos fanáticos como Loughner, convictos de que as cabeças que não pensam como as deles merecem uma única coisa: bala.

Por Frei Betto, OndaVermelha

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O espelho de um só sentido do governo

O governo [dos EUA] agora olha para a maioria do colectivo de cidadãos por trás de um espelho totalmente opaco dum só sentido. Os perigos devem ser óbvios. Por Glenn Greenwald, Salon

Uma das marcas distintivas de um governo autoritário é a sua fixação em esconder tudo o que faz por trás dum muro de secretismo, simultaneamente controlando, invadindo e coligindo ficheiros sobre tudo o que o seu coletivo de cidadãos faz. Baseado no aforismo de Francis Bacon de que "conhecimento é poder," isto é o desequilíbrio extremo que deixa a classe governante omnipotente e os cidadãos sem poder.

No The Washington Post de 23/12, Dana Priest e William Arkin continuam a sua série "Top Secret America" descrevendo como o Estado de Vigilância vasto e crescente na América agora abrange entidades policiais estatais e locais, reunindo e armazenando montantes sempre crescentes de informação inclusive sobre as atividades mais inócuas empreendidas por cidadãos que não são suspeitos de qualquer má conduta. Como foi verdade para as várias primeiras prestações do seu "Top Secret America", não há qualquer revelação especialmente nova para os que prestam atenção a tais assuntos, mas o quadro que pinta – e o fato de que é apresentado num órgão do sistema estabelecido como o The Washington Post – é contudo valioso.

Hoje, os repórteres do Post documentam como a vigilância e os métodos de policiamento usados pela primeira vez nas guerras e ocupações no estrangeiro pela América estão a ser rapidamente importados para a vigilância interna (scanners de impressões digitais sem fios, câmaras de infravermelhos de nível militar, scanners biométricos de rosto, drones sobre a fronteira). Em suma:

As unidades de operações especiais preparadas para o estrangeiro para matar a liderança da al-Qaeda conduziram a avanços tecnológicos que se estão a expandir agora no uso pelos Estados Unidos fora. Nas linhas da frente, aqueles avanços permitiram a fusão rápida de identificação biométrica, registos de computador apanhados e números de telemóveis para que as tropas possam lançar o ataque de surpresa seguinte. Cá dentro, é o Departamento de Segurança Interna que está enamorado pela recolha de fotos, imagens de vídeo e outra informação pessoal de residentes dos Estados Unidos, na esperança de destrinçar os terroristas.

Entretanto, o Departamento de Segurança Interna de Obama alargou rapidamente o alcance e invasividade dos programas de vigilância internos – o que foi justificado, obviamente, em nome do terrorismo:

[A Secretária do DSI Janet] Napolitano levou a campanha "Vêem algo, digam algo" muito para além dos sinais de tráfego que pedem aos condutores a entrar na capital da nação que dêem "Dicas sobre o terror" e "Informem sobre atividades suspeitas".

Recentemente ela alistou a ajuda da Wal-Mart, da Amtrak, das principais ligas desportivas, de cadeias de hotéis e de passageiros do metro. Nos seus discursos, compara o empreendimento à luta da Guerra Fria contra os comunistas.

"Isto representa uma viragem no nosso país", disse aos agentes da polícia e bombeiros da cidade de Nova York na véspera do aniversário do 11 de Setembro este Outono. "De certo modo, isto leva-nos ao tempo em que nos baseávamos na tradição da defesa civil e num estado de preparação militar que antecederam as preocupações de hoje."

Os resultados são previsíveis. Enormes quantias de dinheiro do 11 de Setembro e do anti-terrorismo inundaram entidades estatais e locais que não enfrentam praticamente nenhuma ameaça de terrorismo e elas usam esses fundos para comprar tecnologias – compradas à indústria do setor privado que controla e operacionaliza programas de vigilância do governo – para de forma grandemente aumentada monitorizar e manter arquivos sobre cidadãos comuns que não são suspeitos de qualquer má conduta. A cooperação sempre crescente entre entidades federais, estatais e locais – e entre e dentro das entidades federais – fez eclodir bases de dados maciças com informação contendo as atividades de milhões de cidadãos americanos. "Há 96 milhões de conjuntos de impressões digitais" na base de dados da agência do FBI, relata o Post. Além disso, o FBI usa o seu programa de "registo de atividades suspeitas" (SAR) para reunir e fornecer quantidades sem fim de informação sobre americanos inocentes.

Ao mesmo tempo que o FBI estende a sua base de dados de West Virginia, está a construir um vasto repositório controlado pelas pessoas que trabalham numa caixa-forte secreta no quarto andar do edifício J. Edgar Hoover do FBI em Washington. Este armazena os perfis de dezenas de milhares de americanos e residentes legais que não são acusados de qualquer crime. O que fizeram foi parecer estar a atuar de modo suspeito a um xerife duma cidade, a um polícia de trânsito ou até a um vizinho.

Para se ter uma ideia do tipo de informação que acaba por ser armazenada – baseada na conduta mais inócua – leia-se esta página do seu artigo que descreve o Relatório Nº 3821 de Atividades Suspeitas. Mesmo o FBI admite o enorme desperdício que tudo isto é – "'noventa e nove por cento não produz resultados nem leva a nada' disse Richard Lambert Jr., o agente especial encarregado da agência de Knoxville do FBI" – mas, como a história conclusivamente prova, os dados coligidos sobre os cidadãos serão usados para alguma coisa mesmo que não revelem nenhuma criminalidade.

Para entender a amplitude do Estado de Vigilância, lembre-se esta frase do artigo original de Priest/Arkin: "Todos os dias, os sistemas de recolha de dados da Agência de Segurança Nacional interceptam e fornecem 1,7 biliões de mensagens de correio electrónico, telefonemas e outros tipos de comunicações". Como Arkin e Priest documentam hoje, há pouca salvaguarda em relação a como todos estes dados são usados e abusados. Os departamentos de polícia locais encontram-se por rotina com grupos neo-conservadores que insistem que todas as comunidades muçulmanas no país são uma ameaça potencial e que devem ser submetidas a vigilância intensiva e a infiltração. Grupos envolvidos em oposição claramente legal e autorizada foram submetidos a esses programas de vigilância do governo. O que temos, em suma, é um estado de vigilância vasto, incontrolado e cada vez mais invasivo que sabe e reúne cada vez mais a informação sobre as atividades de cada vez mais cidadãos.

Mas o que faz tudo isso especialmente ameaçador é que – como o conflito da WikiLeaks demonstra – tudo isto tem lugar ao lado dum muro de secretismo sempre a expandir-se, atrás do qual a própria conduta do Governo é escondida da vista do público. Considere-se apenas a reação do Governo às revelações de informação da WikiLeaks que até ele – em momentos de sinceridade – reconhece não terem causado nenhum verdadeiro dano: informação revelada que, criticamente, foi protegida com designações de segredo de nível relativamente baixo e que (em contraste com os Papéis de Pentágono) não foi designada "Top Secret".

É claro como a água que o Departamento de Justiça está envolvido numa cruzada total para compreender como encerrar a WikiLeaks e prender Julian Assange. Está a submeter Bradley Manning a condições inacreditavelmente desumanas para manipulá-lo para que forneça o testemunho necessário para levar Assange a tribunal. Lembre-se que em 2008 – muito antes que alguém até soubesse sequer o que a WikiLeaks era – o Pentágono secretamente conspirou sobre como destruir a organização. No Meet the Press de ontem, perguntaram a Joe Biden se ele concordava mais com a afirmação de Mitch McConnell que Assange é "um terrorista de alta tecnologia" do que com os que se comparam a WikiLeaks com Daniel Ellsberg e o Vice-presidente respondeu:

"Eu argumentaria que está mais próximo de ser um terrorista de alta tecnologia...". "Um terrorista de alta tecnologia". E considere-se este pequeno ensaio pernicioso de Eric Fiterman – um antigo agente especial do FBI e fundador de Methodvue, "uma empresa de consultoria que fornece cibersegurança e o serviços de investigação criminais computorizados ao governo federal e a empresas privadas" – que claramente reflecte a visão do Governo sobre a WikiLeaks.

No caso WikiLeaks, um grupo marginal dirigido principalmente por estrangeiros a operar fora do país está a obter, rever e disseminar ilegalmente informação sobre espionagem americana com a intenção declarada de prejudicar os Estados Unidos (o próprio fundador da WikiLeaks Julian Assange fez esta declaração). Isto não só vai ao encontro da definição de atividade agressiva, hostil e bélica, mas de forma directa visa posições diplomáticas da América e interesses de espionagem infligindo danos colaterais às nossas instituições financeiras e aos fornecedores de serviços que cortaram relações com a WikiLeaks. Isto, minha gente, é guerra.

Esta é a mentalidade do governo dos Estados Unidos: tudo o que faz com qualquer significado pode e deve ser protegido da vista do público; quem quer que lance luz sobre o que faz é um Inimigo e deve ser destruído; mas nada do que fazemos deve estar para além dos seus olhos de monitorização e armazenamento. E o que é o mais notável nisto – embora não surpreendente, dado o completo consenso bi-partidário sobre isto – é o modo ansiosamente submisso como a maior parte do colectivo dos cidadãos está face a este desequilíbrio. Muitos americanos suplicam ao seu governo em uníssono: exigimos que saibam tudo sobre nós mas que nos mantenham ignorantes sobre o que fazem e punam os que no-lo revelem. Muitas vezes, esta espécie opressiva de Estado de Vigilância tem de ser forçosamente imposta a um colectivo de cidadãos resistentes, mas a maior parte do colectivo de cidadãos americanos assustados – dirigido pelas figuras dos meios de comunicação que mais odeiam a transparência – foi treinado com uma corrente sem fim de promoção do medo para exigir serem submetidos a cada vez mais medo.

Obviamente, cada estado é necessariamente autorizado a exercer poderes que os cidadãos privados são proibidos de exercer eles mesmos (os governos podem pôr legalmente pessoas em jaulas, mas se um cidadão privado o fizer isso constitui um crime: rapto e falsa detenção). Mas o desequilíbrio tornou-se tão extremo que – o governo agora olha para a maioria do colectivo de cidadãos por trás dum espelho totalmente opaco dum só sentido – os perigos devem ser óbvios. E tudo isto deveria ser precisamente ao contrário: os funcionários do governo é que devem operar às claras, enquanto os cidadãos comuns têm direito à privacidade. Contudo invertemos esta dinâmica quase por completo. E mesmo depois do 11 de Setembro, há já 9 anos atrás, as tendências continuam num só sentido. A WikiLeaks é uma das muito poucas entidades que subverteram este esquema com sucesso, razão pela qual – do ponto de vista do governo e seus apoiantes – deve ser parada a qualquer preço.

ATUALIZAÇÃO: Dois pontos relacionados:

(1) Joe Biden não só votou a favor da Guerra do Iraque como foi Presidente do Comité de Relações Externas em 2002 no momento em que o Senado autorizou aquele ataque, ataque que resultou na morte de bem mais de 100.000 seres humanos inocentes e que foi lançado sob a bandeira estratégica do "Choque e Pavor," concebido explicitamente para aterrorizar iraquianos para que não resistissem através do uso de exposição maciça da devastação urbana. Julian Assange nunca autorizou qualquer violência, nunca matou ninguém, nunca defendeu que se matasse alguém, e nunca ameaçou ninguém de morte. Contudo o primeiro pode acusar o segundo de ser quase "um terrorista de alta tecnologia" sem que muitas pessoas pisquem um olho – ilustrando, mais uma vez, que o termo "terrorismo" não tem sentido e é manipulado; se é que significa algo, a sua definição é esta: "os que impedem ou desafiam a vontade americana com algum grau de eficácia".

(2) De todos os abusos do estado de vigilância, um dos mais flagrantes é certamente a apreensão sem mandato e cega de computadores portáteis e outro equipamento electrónico feita pelo governo a cidadãos americanos na fronteira, pela qual não só armazenam os conteúdos daqueles dispositivos como às vezes guardam os itens apreendidos indefinidamente. Essa prática está a tornar-se cada vez mais comum, dirigida a gente que não fez mais do que discordar da política do governo; pretendo escrever mais sobre isto em breve. Se os cidadãos americanos não objectam à apreensão permanente e à cópia dos seus computadores portáteis e telemóveis sem qualquer mandato ou supervisão judicial, a que objectariam alguma vez?

Tradução de Paula Sequeiros para o Wikifugas

Esquerda.net

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